*Marcelo Teixeira
“Se não houver frutos, valeu a beleza das flores. Se não houver flores, valeu a intenção das folhas. Se não houver folhas, valeu a intenção da semente.”
Este verso, frequentemente citado nas redes e atribuído ao poeta Maurício Francisco Ceolin — também conhecido como Chico Ceola ou Maurício Celoa — traz, na sua simplicidade lírica, uma meditação existencial. À semelhança dos koans zen budistas, é curto, mas espantosamente vasto.
Vivemos tempos em que o resultado tem sido entronizado como o único critério válido de sucesso. A sociedade da produtividade, como bem observou o filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han, nos doutrina a confundir valor com desempenho. Nesse contexto, a poesia de Ceolin se insurge com delicadeza, propondo uma nova lógica: a do mérito da intenção, da beleza do processo e da dignidade do esforço.
A metáfora botânica nos ensina que nem toda semente floresce, nem toda flor frutifica. No entanto, toda tentativa de vida, ainda que frustrada no plano objetivo, carrega em si o valor da intenção. Essa visão confronta a mentalidade utilitarista que contamina desde o mercado de trabalho até os vínculos afetivos. Hoje, relações amorosas são muitas vezes avaliadas como “investimentos emocionais”, e pessoas são “descartadas” quando não mais geram frutos visíveis.
A semente, mesmo que jamais brote, traz em si o mistério da possibilidade. É potência. É fé. É ato inaugural. É, sobretudo, gesto ético. Uma sociedade ética não se funda apenas nos resultados alcançados, mas nas intenções cultivadas. Desconsiderar isso é ignorar que a vida humana, ao contrário das máquinas, não se mede apenas pelo output.
Na educação, por exemplo, quantos professores seguem lançando sementes em solo aparentemente estéril? Quantos jovens, em condição de vulnerabilidade, não florescem na mesma estação em que foram semeados, mas germinam anos depois, em silêncio, à sombra das estatísticas? Valorizar apenas os frutos é negar o tempo orgânico da existência, que é feito de ciclos, de esperas e de esperanças.
A poesia também nos convida a perceber beleza onde muitos veem fracasso. A flor, efêmera, é bela mesmo que não produza fruto. A folha, silenciosa, é intenção de vida mesmo que não seja notada. Este é um convite à contemplação do inacabado, à gratidão pelo processo e à humildade diante dos limites.
É, por fim, uma ode ao agir com propósito, mesmo diante da incerteza. Quando tudo parece falhar, resta ainda o mérito de quem tentou. E, nesse ponto, a poesia toca a filosofia estoica: não controlamos os resultados, apenas as nossas atitudes.
Assim, que sejamos sementes — mesmo quando o mundo exige frutos. Que sejamos folhas — mesmo quando a beleza não floresce. Que sejamos flores — mesmo sob o risco de não frutificar. Porque, ao final, o valor da existência está menos no que colhemos e mais no que escolhemos plantar.
Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

