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    Home»Cidades»Andradina»O ÚLTIMO DIA DO ANO NÃO EXISTE.
    Andradina

    O ÚLTIMO DIA DO ANO NÃO EXISTE.

    By jornalistacrispim1 de janeiro de 2022Nenhum comentário4 Mins Read
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    RUBENS BIZARRO ROMARIZ
    rb.romariz@gmail.com

    “O mais infeliz de todos os homens é aquele que assim se julga, porque, a desgraça depende menos das coisas que sofremos do que a imaginação com que aumentamos a própria infelicidade.” ( Fénelon)

    O último dia do ano não existe, os relógios que fazem as horas, o sol que fazem os dias, os dias que fazem os anos, a memória que guarda as lembranças que a vida tece, jamais acabam ou findam no calendário.

    O último dia do ano é apenas uma fantasia, uma tradição, uma página a virar de uma etapa da vida. Há, contudo uma importância ímpar no findar de cada ano – a volta dos filhos para rever a família, em cuja casa ali viveu a sua infância. Esse sentimento de volta, a percepção da mesma cama do cerne da peroba rosa, a mesma janela de madeira veneziana desgastada pela ação do tempo, aquele imenso pé de fruta-pão, a velha mangueira espada, e a sombra das folhinhas da jabuticabeira naquele canto do quintal, que cresci e espreitava as nuvens brancas, imensos flocos de algodão doce.

    Deixo-me cair na velha cama, fecho os olhos em sonhos, ouço o cacarejar de uma galinha, um sopro de vento balança a cortina, uma nuvem escura se aproxima escondendo o sol, a mãe corre atrás da roupa no varal, um relâmpago e um trovão anuncia a chuva, o cachorro Pipo enfia-se sob uma pequena mesa no canto da área. A memória lembra seu Manoel, o jardineiro que sempre dizia ao ouvir os trovões, que era o São Pedro arrastando os móveis no assoalho do céu. A infância quando pura a tudo acredita, a tudo imagina, onde com certeza São Pedro estava vestido de camisolão e tinha uma longa barba branca, tal igual a do Papai Noel.
    A chuva do céu que molhava o meu quintal é a mesma de hoje e, eu saia sempre ao eu encontro, brincava com as gotas que caiam e todo molhado desafiava as gripes e os resfriados. A casa era sempre bonita, com a varanda e o caramanchão. Os jardins traziam dálias coloridas, margaridas brancas, rosas vermelhas entrelaçadas entre as folhagens que vovó estava sempre plantando. As espadas de São Jorge que a gente cortava para brincar dividindo a rua de terra com todos os meninos e meninas das redondezas, cujos nomes e apelidos a gente os tinha na ponta da língua. As árvores de frutas como as simples mangas coquinhos ou as rosas.
    Eram sempre achadas em dezembro, às híbridas inventadas pelo homem moderno ainda não existiam. Andávamos de pés nus procurando os cajus, as carambolas azedas de dona Zizi, as goiabas vermelhas do quintal do seu Pedro. Depois, nas longas tardes, o ar trazia o cheiro do café torrado, as fatias do bolo de fubá ainda quente, as espigas de milho verde. O rádio anunciava mais um capítulo da novela “O Direito de Nascer” e vovó e as vizinhas reuniam-se em torno do rádio ‘General Eletric’ e através das ondas curtas a Rádio Nacional transmitia diretamente do Rio de Janeiro.

    Meu pai lia o jornal que chegava sempre com atraso de dois dias, o relógio caminhava preguiçosamente pelas horas da tarde. Os pães eram feitos em forno de quintal e aquecidos sob as folhas das bananeiras, cujas massas traziam gordura de porco, sal, fermento e farinha pura. Eram pães gordos passados por longo tempo nos cilindros manuais. O leiteiro trazia o leite na porta e tinha o nome de Mazzaropi, porque tinha os pés abertos sempre marcando dez para as duas como no relógio.

    O passado, a infância sempre desafiando a mãe ranzinza e o pai sempre cobrando, o cachorro Pipo com todas as travessuras, o frango assado nos domingos, sempre existirão na memória, pois a vida nunca foi feita pela soma dos anos, mas sim por todas as lembranças que guardamos de nossa existência.
    Saber sentir todas as alegrias colhidas, saber fechar os olhos e poder sonhar acordado e rir de todos os que pensam ser hoje o ultimo dia do ano. O ano novo, a velha casa, serão sempre as saudades colhidas na vida de nossa existência. Feliz Ano Novo a todos que dormem na velha cama de peroba. Ao anos eu ficaram somente existem na memória guardada das saudades.

    Rubens B. Romariz professor de ciências, biólogo, pedagogo, escritor, cronista aposentado de 30 anos de magistério.

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