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    Home»ETC»“Real” não é filme de direita. É um filme. E dos bons
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    “Real” não é filme de direita. É um filme. E dos bons

    By marcio123rocha30 de maio de 2017Nenhum comentário3 Mins Read
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    Hoje em dia é assim: a simples existência de uma manifestação artística, de um raciocínio empírico ou de uma prosaica opinião imediatamente te transforma em comunista ou neoliberal, mortadela ou coxinha, tucano ou petista. Cada vez menos as pessoas se ouvem. O importante é gritar mais alto para que um pensamento diferente do seu não seja ouvido.

    Real, O Plano por Trás da História atesta mais uma vez o maniqueísmo burro que assola nossos dias. Antes que sequer tivesse sido lançado (ou seja, antes que as pessoas tivessem tido a chance de vê-lo), o filme, dirigido por Rodrigo Bittencourt (que também dirigiu a comédia Totalmente Inocentes)  foi tachado de “filme de direita”. No início de maio, um grupo de cineastas (artistas, portanto, gente que deveria estar aberta a ideias várias para criar suas próprias obras) boicotou o Festival Cine PE por causa da simples presença do filme de Bittencourt na programação da mostra.

    Azar de quem fecha os olhos para o mundo. Perderam de ver um bom filme. Baseado no livro 3.000 Dias no Bunker, de Guilherme Fiuza, o longa conta como foram os dias que antecederam a criação do Plano Real, um divisor de águas na economia brasileira, que até então convivia com inflação anual de quatro dígitos. (Para quem não tem essa referência ou prefere a amnésia seletiva, 1993, último ano completo sem existência do real, teve inflação de estratosféricos 2400%).

    É preciso frisar que se trata de uma obra de ficção. O filme coloca, por exemplo, Gustavo Franco (vivido por Emilio Orciollo Neto), ex-presidente do Banco Central, como o grande protagonista do projeto que trouxe ao mundo a atual moeda brasileira, surgida em 1994. Aqui, não há spoiler: Franco foi um dos personagens envolvidos na criação da moeda, mas não foi seu principal ator.


    Isso não diminui o filme. Na verdade, é o que ajuda a lhe dar ritmo – do contrário, ele viraria uma soporífera aula de economia na sala escura (coisa que Real não é, frise-se). Rodrigo Bittencourt fez as escolhas que tinha que fazer para criar um filme atraente para o público. Quer saber mais detalhes sobre a origem do real? Vá ler um livro, amigão.

     

    Orciollo Neto faz um Gustavo Franco petulante, ambicioso, arrogante – e isso dá sabor ao filme. No elenco, menção muito necessária a Bemvindo Sequeira no papel do ex-presidente Itamar Franco. Nem todos os personagens, no entanto, estão no mesmo diapasão; a certa altura, a diferença de desempenho de cada personagem acaba sendo um tanto incômoda para o espectador. Mas o resultado geral é positivo.

    Você ficou curioso para ver o filme? Ótimo, vá ao cinema. Você duvida piamente de nossa avaliação? Ótimo, vá ao cinema para ter argumentos para discordar da gente. Só não faça como o grupo que boicotou o Festival Cine PE por causa da presença de um filme com “discurso partidário alinhado à direita conservadora”, como diz trecho do manifesto conjunto dos cineastas.

    Ignoram os doutos que Nelson Rodrigues tinha um pensamento alinhado à direita. Levado o raciocínio dos signatários do tal manifesto ao pé da letra, eles simplesmente se recusariam a ler qualquer obra ou ver qualquer peça do sujeito que foi simplesmente o maior dramaturgo brasileiro do século 20. Até quando vamos optar pela cegueira ao pensamento alheio?

    Fonte: GQ | Seu Guia de Moda Masculina, Cultura e Lifestyle
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