Fábio Piperno

Integrante do clubão dos oligarcas da bola, grupo que reúne a longeva realeza que comanda as entidades que regem o futebol, o paraguaio Alejandro Dominguez não se esquivou de revelar ao mundo sua canhestra faceta de piadista sem graça e sem escrúpulos na vexatória comparação do Brasil com a macaca Chita. Sem talento para o humor, o cartola muito provavelmente desconhece que ataques racistas em eventos da entidade que dirige começaram já no primeiro jogo oficial em evento realizado pela Conmebol.
No distante 1916 a entidade foi fundada em Buenos Aires como parte das comemorações pelo centenário da independência da Argentina. Para celebrar o fato, Argentina, Uruguai, Brasil e Chile aceitaram o convite para a disputa do primeiro campeonato sul-americano.
Na abertura do torneio, no dia 2 de julho, 10 mil pessoas presenciaram a previsível goleada uruguaia contra o Chile. Em atitude vexatória, os chilenos protestaram no dia seguinte contra a inclusão de dois jogadores negros na seleção adversária. Queriam os pontos da partida sob a alegação de que os rivais haviam incluído “dois africanos” em sua equipe, algo proibido pelo regulamento do torneio. Gradin e Delgado eram, obviamente, nascidos em território uruguaio e a acusação do Chile acabou sendo ridicularizada tanto pelos demais participantes, quanto também pela imprensa de Uruguai e Argentina. O El Dia, jornal uruguaio que tinha como proprietário o ex-presidente do país, o reformista Jose Battle Ordonez, ironizou de forma implacável o golpe baixo dos chilenos. “Talvez eles temam que nossos jogadores africanos também sejam canibais”, destacou texto do jornal.
Pois bem. Alguém, por favor, avise Dominguez que há 109 anos o racismo resiste nos eventos Conmebol. E que isso não é piada.
Fábio Piperno é jornalista e atualmente é comentarista esportivo e político na Jovem Pan, além de manter o canal Derby Todo Dia no YouTube



