*Marcelo Teixeira
Há uma pergunta silenciosa que acompanha toda trajetória humana: quem permanece quando os aplausos cessam? A resposta, muitas vezes, revela mais sobre os outros — e sobre nós mesmos — do que qualquer discurso de lealdade proclamado em tempos de bonança.
Vivemos uma era de alianças frágeis. A palavra “parceria” tornou-se moeda corrente, repetida em reuniões, redes sociais e compromissos informais. No entanto, como toda moeda inflacionada, rapidamente perde valor. É fácil estar ao lado de alguém quando há vitórias, conquistas e visibilidade. Difícil — e raro — é permanecer quando surgem críticas, derrotas e incertezas. O fracasso, ao contrário do sucesso, é um filtro implacável.
A história, tão cara aos olhos de um observador atento, está repleta de exemplos. Líderes aclamados em dias de glória foram abandonados nas primeiras sombras da adversidade. O ser humano, por instinto ou conveniência, tende a gravitar em torno do êxito. A vitória atrai; a queda afasta. Não se trata apenas de oportunismo consciente, mas de uma lógica social profundamente enraizada: associar-se ao sucesso é, simbolicamente, participar dele.
No cotidiano, essa dinâmica se repete em escala menor, porém não menos significativa. Amigos que silenciam diante de uma crítica injusta. Colegas que desaparecem quando um projeto falha. Conhecidos que, outrora próximos, tornam-se distantes diante da perda de status ou poder. Curiosamente, muitos desses mesmos rostos reaparecem quando a maré vira, como se a ausência anterior fosse um detalhe irrelevante.
Mas não é.
A verdadeira parceria não se mede nos dias de celebração, mas nos momentos de desconforto. Estar ao lado de alguém quando tudo vai bem exige pouco: basta compartilhar do ambiente favorável. Permanecer quando há risco, desgaste ou impopularidade exige caráter. E caráter, ao contrário do sucesso, não é circunstancial.
Há, portanto, uma inversão necessária de perspectiva. Em vez de perguntar quem estará presente na vitória, talvez devêssemos observar quem permaneceu na adversidade. Esses são os nomes que importam. São os rostos que não precisam de convite para estar ao lado, porque nunca saíram.
Isso não significa cultivar ressentimento ou transformar a memória em tribunal permanente. A vida é dinâmica, e as pessoas também são atravessadas pelos seus próprios medos e limitações. Contudo, reconhecer padrões é um exercício de maturidade. Nem toda presença é companhia; nem toda ausência é esquecimento. Há quem esteja por conveniência e quem permaneça por convicção.
No final, a vitória é um palco iluminado que atrai plateias numerosas. Mas é nos bastidores, longe das luzes, que se constroem os vínculos verdadeiros. Quando você vencer muitos estarão ao seu lado. A pergunta essencial não é quantos virão, mas quantos já estavam.
E, sobretudo, se você saberá reconhecê-los.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

