Por Alceu Batista de Almeida Júnior
Antes da fundação de Araçatuba, da chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e da expansão da cafeicultura, a região era habitada pelos Kaingang, principais povos indígenas do noroeste paulista e legítimos guardiões dessas terras durante séculos. Pertencentes ao tronco linguístico Macro-Jê, ocupavam um vasto território entre os rios Tietê, Aguapeí (Feio), do Peixe e Paraná. Pesquisas arqueológicas indicam sua presença desde pelo menos o século XV, embora sua ocupação seja muito mais antiga, preservada pela tradição oral. Os Kaingang desenvolveram uma sociedade organizada e profundamente integrada ao ambiente natural. Chamados pelos colonizadores de “Coroados”, devido ao corte circular dos cabelos dos homens, possuíam uma organização social baseada nas metades clânicas Kamé e Kairu, que regulavam casamentos, alianças familiares, cerimônias religiosas e a vida comunitária.
Sua economia combinava agricultura, caça, pesca e coleta. Cultivavam milho, mandioca, feijão e abóbora, complementando a alimentação com caça, peixes, frutos, mel e plantas medicinais. Mais do que recursos de sobrevivência, rios, matas e animais eram considerados parte de um universo sagrado, refletindo uma relação de profundo respeito com a natureza. Essa realidade começou a mudar na segunda metade do século XIX, quando a expansão da cafeicultura avançou para o oeste paulista. A Lei de Terras de 1850 favoreceu a ocupação privada das áreas consideradas devolutas, desconsiderando a presença indígena. Fazendeiros, companhias colonizadoras e especuladores passaram a disputar territórios tradicionalmente ocupados pelos Kaingang.
O conflito agravou-se a partir de 1905, com o início da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Os trilhos atravessavam o território indígena, abrindo caminho para fazendas e novos núcleos urbanos, entre eles Araçatuba. Em resposta, os Kaingang resistiram à ocupação, atacando acampamentos de trabalhadores e interrompendo obras da ferrovia. A reação foi violenta. Fazendeiros contrataram grupos armados conhecidos como bugreiros, responsáveis por perseguir e exterminar indígenas. Massacres, somados às epidemias de gripe, sarampo e outras doenças trazidas pelos colonizadores, provocaram a morte de grande parte da população Kaingang. Esse período é considerado um dos episódios mais trágicos da ocupação do oeste paulista. Em 1912, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), com a participação do etnólogo Curt Nimuendajú, estabeleceu contato com grupos liderados pelo cacique Rerĩ. O episódio, denominado na época de “pacificação dos Kaingang”, é hoje interpretado de forma crítica, pois marcou a perda da autonomia territorial e o confinamento dos sobreviventes em reservas indígenas. Entre as principais áreas destinadas aos Kaingang destacam-se a Terra Indígena Icatu, em Braúna, município vizinho de Araçatuba, e a Terra Indígena Vanuíre, em Arco-Íris. Nessas comunidades, os Kaingang preservam sua língua, tradições, rituais e organização social, mantendo viva uma importante herança cultural.
Apesar da expulsão de grande parte de seu território ancestral, os Kaingang permanecem profundamente ligados à história de Araçatuba. O próprio nome da cidade, de origem tupi, significa “lugar onde há muitos araçás”, evidenciando a influência indígena na formação regional. Em reconhecimento à importância dos primeiros habitantes, a Praça Rui Barbosa abriga um busto em homenagem ao povo Kaingang, obra do artista Mário Bueno, inaugurado com a participação de lideranças indígenas. A história de Araçatuba não começa com a ferrovia nem com sua fundação oficial em 1908. Ela se inicia muito antes, quando os Kaingang ocupavam livremente as matas e rios do oeste paulista. Conhecer sua trajetória é reconhecer que o desenvolvimento regional também foi marcado por conflitos, perdas e injustiças, mas igualmente pela resistência de um povo que preserva sua identidade e continua contribuindo para a diversidade cultural brasileira. Resgatar essa memória é valorizar os verdadeiros primeiros habitantes da região e compreender, de forma mais completa, a história de Araçatuba.
Alceu Batista de Almeida Júnior é advogado, memorialista e autor do Livro: “Memórias de Araçatuba”.

