*Marcelo Teixeira
Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, um clássico de Machado de Assis, Cotrim busca constantemente o conflito com outras personagens. Amigo do protagonista, ele se destaca pela personalidade confrontadora e provocativa, sendo que frequentemente entra em discussões acaloradas e busca polemizar com seus interlocutores, tornando-se um elemento de conflito na narrativa. É um chato, um dos vários, diversos, inúmeros tipos de chatos.
Conhece alguém assim? Mais de uma pessoa? Você se reconhece nessa descrição? Particularmente, tenho contato com um número considerável de indivíduos que se assemelham a Cotrim.
Conversei com alguns colegas psicólogos para entender que o comportamento de buscar constantemente o conflito com outros indivíduos pode ser influenciado por uma variedade de fatores psicológicos e sociais.
Explicaram-me que algumas possíveis explicações incluem traços de personalidade, sendo que pessoas com personalidades mais agressivas, impulsivas ou dominantes podem ser mais propensas a buscar conflitos como uma forma de afirmar seu poder ou controlar situações. Experiências traumáticas ou negativas no passado também podem levar algumas pessoas a adotar comportamentos agressivos como uma forma de autodefesa ou para evitar serem exploradas novamente.
Há ainda a necessidade de atenção. Algumas pessoas podem buscar o conflito como uma maneira de chamar a atenção para si mesmas, mesmo que seja negativa, porque acreditam que é a única forma de serem notadas. Igualmente, dificuldades em expressar pensamentos e emoções de forma saudável podem levar à busca do conflito como uma maneira inadequada de comunicar suas preocupações ou frustrações. Os profissionais que procurei listam ainda pressões sociais, como a cultura de confronto em certos grupos ou ambientes, que podem encorajar o comportamento agressivo. E, por fim, problemas psicológicos. Em alguns casos, distúrbios, como transtornos de personalidade, podem contribuir para a busca constante do conflito.
Claro que as razões variam de pessoa para pessoa, e a busca de conflito nem sempre é consciente. A conversa entre amigos sinceros – os chatos precisam muito de pelo menos um amigo sincero – pode até servir para abrir o olho do obcecado, mas bom mesmo é o aconselhamento psicológico profissional, que tende a ser útil e eficaz para entender e lidar com esse comportamento de maneira mais construtiva.
*Marcelo Teixeira é jornalista e membro de Academia Araçatubense de Letras (AAL)

