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terça-feira, maio 17, 2022

A você, mãe

FERNANDA COLLI

Antes de mais nada, gostaria de esclarecer a você, nobre leitor, que escrever foi uma forma de abraça-lo. E abraço não requer requinte, nem expertise ou qualquer especialidade acadêmica com a língua, com a literatura ou algo do gênero; o abraço na sua simplicidade é um nó que a gente dá para desatar outros nós. Eu não pretendo descontruir nem construir opiniões com meus textos, mas pretendo, e de uma maneira extremamente despretensiosa mostrar que quem lê o que eu escrevo, se identifique e talvez acabe se lendo em meus exemplos, entenda que não está sozinho. Ouvi dizer que meus textos acabam permanecendo na zona de conforto, e o texto de hoje é justamente para isso: não para que eu permaneça na zona de conforto, mas que eu consiga levar todos para uma zona de conforto. Conforto da alma. Eu dedico hoje esse conforto a você mulher, que está a terminar de arrumar a casa e as mochilas e as malas, porque tem que acordar amanhã bem cedo para começar um novo dia (olhei no relógio e era uma hora da manhã). A você esposa que está a deixar tudo pronto, e quando se vira apenas para mudar de posição no computador, observa seu digníssimo descansando, dormindo o “sono dos justos”, olha para o outro lado vê seus filhos e já analisa: estão com cobertas, travesseiros, pijamas, estão com semblante tranquilo…
Corre, olha a agenda, não tem tarefa, não tem médico, o dentista é para outro dia; será que amanhã pela manhã estará frio? Deixarei uma troca de roupa para o frio e outra para o calor. Já deixo o chinelo e um tênis também. Olha o uniforme do marido, a calça, o sapato, ufa! Está tudo certo. E viva a igualdade de gênero!
E daí finalmente você chega no seu serviço. Bom dia. Nossa que cara de acabada. Por que está tão cansada? Tem que dormir para não ficar enrugada. E no final do dia, de pijama desmaia na cama e ouve no fundo da quase inconsciência: nossa amor, você ficou de assistir um filme comigo. Foi dormir e deixou as crianças acordadas, não consigo cuidar delas. Alguém te mandou mensagem e um e-mail. Ligaram da portaria do prédio e tem correspondência pra você. Final de semana. Nossa, amor, está doente? Acordou hoje as oito e não as seis. Já te falei para procurar um médico.
Por favor a senhora poderia escrever sobre os traumas que nossas crianças estão passando? Você viu essas mães… ah, essas mães não tem paciência com as crianças, estão sempre cansadas. O certo é a mãe acordar cedo, não tem que ficar descansando não. Que absurdo essa mãe ter que querer ficar no salão de beleza. Tem que cuidar dos filhos.
Acima inseri alguns diálogos e comentários em que são submetidas todas as mães, principalmente agora, durante a pandemia. Eu vejo estudos e pesquisas, preocupados com os trabalhadores, com estudantes, com as crianças, jovens; mas será que estamos cuidando de nossas mães? A contemporaneidade nos trouxe maravilhas, mas manteve o machismo exacerbado, a cobrança em cima da mulher, que não, não vai acabar por não ser algo simples.
A gente ainda não consegue se posicionar sem ter que estar o tempo todo se desdobrando ou se justificando. Vão questionar suas tarefas; depois seu modo de executá-las, posteriormente se conseguir conciliar tudo, irão falar que você é superficial e não sabe viver a vida.
O fato é que mulheres que lutam para um futuro diferente para suas filhas, para as gerações futuras, muitas vezes se encontram sozinhas e completamente isoladas ou pela quantidade de afazeres ou pela quantidade de cobranças.
Qual mulher nunca andou um pouco mais depressa porque achou que estava sendo seguida? Qual nunca enfrentou o assédio sem nem ao menos poder expor o caso já sabendo que não haveria menor chance de um reconhecimento, que mulher nunca se olhou no espelho e jurou que vai ficar sem comer para emagrecer os 5 quilos que o marido criticou. Qual mãe não desejou infinitamente dormir antes da meia noite…
Quantas e quantas vezes a gente tem que se levantar e tentar, continuar, seguir, mesmo após de um não, de uma ofensa, de um descrédito. Quantas foram as vezes que você chorou no banheiro para ninguém ver?
É intrigante a forma com que somos questionadas, cobradas e na maioria (senão em todas) das vezes julgadas. Mas devemos seguir.
Sei que as reclamações e reivindicações que recebemos muitas vezes depende mais de terceiros do que de você.
Meu abraço hoje vai para todas as mães que acumularam tarefas desde o home office até a alfabetização de seus filhos e se tornaram sobreviventes da pandemia. Para aquelas que estão se culpando por não terem mais tempo com seus pequenos, aquele tempo que tanto é estipulado pelos especialistas que não calcularam que o dia tem apenas 24 horas. Sei que o mundo não nos olha com o devido valor. Mas saibam que vocês são essenciais para que a sociedade possa caminhar sempre em frente.
O que gostaria de deixar hoje é que mesmo que pareça ou apareça algo insuportável, vai passar. E que você tenha maturidade para ser quebrada ao meio e não revidar. Seja fiel à sua essência e não abra mão do que te diferencia dos outros. Já ouvi dizer que quem tem o coração bom acaba sofrendo muito, mas é sempre bom lembrar que é o nosso coração bom que nos faz voar alto. É esse nosso instinto materno que encoraja e inspira toda a humanidade.
Não se esqueça que é você que faz caber 48horas em 24 horas de um dia. Você é especial como todas nós.
Que esse meu abraço desate alguns nós, e mesmo se não, que impeça que sejam criados.
Feliz dia a você, mãe.

Fernanda Colli pedagoga, psicopedagoga, Arte Educadora, presidente do Conselho Municipal de Cultura

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