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segunda-feira, junho 27, 2022

A memória nas coisas

Cinthya Nunes

 

Polêmicas à parte sobre o autor, sempre fui encantada pela personagem Emília, do Sítio do Pica-pau Amarelo. Achava incrível uma boneca que falava, era inteligente, marrenta e cheia de imaginação e tudo sem ter um coração! Até noiva de um Marquês ela foi. Tudo bem que o tal nobre era um porquinho, mas para alguém feita de pano, estava de bom tamanho.
Meu fascínio pela Emília se devia principalmente ao baú que ela possuía. Quantas vezes peguei uma caixa de sapatos, na falta de algo melhor e fingi que era o meu baú de lembranças e coisas incríveis. Viajei para lugares impensados usando o pó de pirlimpimpim fabricado pelos meus devaneios. Guardava dentro do meu “baú” uma série de coisinhas inúteis, mas que eu fazia repletos de significados só meus.
Creio que venha daí a memória que imprimo em algumas coisas, cheias que ficam de simbolismos, lembranças e saudades. Por coincidência ou não, pareço atrair objetos que carregam com eles marcas de uma ou de várias vidas. Essas coisas vão abrindo caminhos inesperados até pararem nas minhas mãos e no meu afeto.
Herdei de meu avô paterno, padeiro que foi, o cilindro no qual ele fazia os pães que sustentaram meu pai e meus tios. Impossível até descrever a gama de sentimentos que isso provoca em mim. Em algum momento herdei também um pequeno dedal, já escurecido pelo tempo, que era usado por uma de minhas bisavós maternas e quando o tenho em mãos gosto de pensar na saudade que ele tem dos dedos que protegia e que deles se separaram por longas décadas.
Na sala de minha casa tenho, restaurada, a máquina de costura que foi de outra bisavó. Olho para ela e é como se eu fosse capaz de escutar o barulho de seu pedal e de sua agulha, no vaivém que dava luz às vestimentas dos muitos filhos. São como sons que viajam no tempo, como se em algum lugar tudo continuasse existindo, separados apenas pelas crenças e limitações humanas.
Há uns doze anos, minha tia-avó, falecida no ano passado aos noventa, entregou-me, em uma delicada caixinha, um anel de ouro simples adornado por uma belíssima e avantajada pérola. Contou-me que ganhara de uma amiga, uma freira, companheira de seus tempos de convento. A religiosa, por sua vez, ganhara do próprio pai a joia e, na ausência de herdeiros, presenteou minha tia que, da mesma forma, repassou-a para mim. Esteve, portanto, junto de mulheres tão diferentes e tão iguais, em uma jornada digna de ser escrita.
Vasculhando meus pertences, encontrei, recentemente, uma semente que brincávamos ser moeda, mas que guardei porque caiu de uma árvore imensa, frondosa, que havia na fazenda dos meus avós. É como se, de algum modo, tantos anos depois, fosse uma possibilidade de renascimento. E o que é uma semente senão um pedaço de futuro protegido? Uma árvore de possibilidades…
Entre outros objetos especialmente significativos, tenho um pingente de uma pedra verde, talvez semipreciosa, que era de minha avó paterna. Era de um par de brincos. Tudo o que ela tinha de valor material, seu único adorno. Dividiu entre duas das cinco netas, entre elas eu. É um verde que me remete à esperança e ao verdadeiro valor do que se pode chamar de herança. Herdei um pedacinho de amor infinito.
Até hoje meu olhar é atraído para pequenos baús ornamentais e sempre os imagino mágicos, grávidos de ilusões e sonhos. O meu baú, assim como hoje também entendo o da famosa boneca de trapos, é composto pelas minhas vivências, pelos gestos daqueles que vieram antes de mim, pela história de outras vidas que hoje, em fragmentos, escorre pela ponta de meus dedos durante o digitar das palavras. Essa minha caixa mágica é a minha herança para quando chegar a minha vez de partir. Os objetos das minhas memórias, certamente sobreviventes a mim, haverão de encontrar novos portos, outros corações, outras palavras…

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e tem esperança de que um dia o pó de pirlimpimpim seja produzido em escala industrial – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br

 

 

 

 

 

 

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