MUDANÇA - Muitas vezes vilão no passado, abacate transformou-se em produto nobre no presente

Abacate: dos quintais para os espaços gourmets e fitness

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DA REDAÇÃO – SÃO PAULO

No Brasil, é comum ver árvores de abacate em praças, ao longo de avenidas e em quintais. E muitos se perguntam: como essa fruta, que parece tão ligada aos pomares domésticos, se tornou comercial, podendo ser encontrada praticamente o ano todo em supermercados, varejões, feiras e outros locais?

Quem responde é o engenheiro agrônomo Ednei Antonio Marques, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, que é diretor do Núcleo de Produção de Mudas São Bento do Sapucaí, da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS). “Desde o final da década de 1970 foram desenvolvidas pesquisas de seleção e melhoramento genético de variedades mais resistentes às doenças e com diversidade de ciclos de produção, de mais precoces a mais tardios. Também foram feitos investimentos na produção de mudas pela metodologia de enxertia – a mais conhecida é a garfagem: união do porta-enxerto com o ramo que é enxertado por uma fenda –  que permite encurtar o período vegetativo da planta e acelerar o crescimento e a frutificação dos abacateiros, bem como a padronização dos frutos de cada cultivar, com uniformização das principais características que garantem a produção comercial”.

Nesse contexto, o agrônomo lembra a contribuição da Secretaria de Agricultura, por meio da extensão rural e assistência técnica, aos produtores e também a disponibilização de mudas com garantia de qualidade e preços acessíveis pelos Núcleos de Produção de Pederneiras, São Bento do Sapucaí, Itaberá, Marília e Tietê (contatos: http://www.cdrs.sp.gov.br). “Há décadas, a Secretaria vem produzindo mudas de abacateiros com metodologias aprimoradas ano a ano”, explica Ednei, destacando que os produtores e os interessados em iniciar no cultivo devem buscar orientação técnica para o plantio e a condução das mudas.

Segundo o agrônomo, o abacate não é endêmico do Brasil, ou seja, é uma fruta exótica. “O abacateiro é cultivado na maioria das regiões tropicais e subtropicais. O seu principal centro de origem localiza-se no México e na América Central, porém outros países da América do Sul – como Colômbia, Venezuela, Equador e Peru – também são berços dessa planta”. De acordo com relatos históricos, o abacate originário do continente americano (Persea americana Mill) foi intitulado inicialmente ahuacatl pelos povos Maia e Asteca. No Brasil, estudos mostram que, por volta dos séculos XVI e XVII, o Rio de Janeiro recebeu as primeiras mudas, as quais se adaptaram muito bem. Mais tarde, elas foram distribuídas para todo o País.

Atualmente, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), São Paulo, Minas Gerais e Paraná, nesta ordem, são os Estados com maior destaque na produção nacional, que é de cerca de 240 mil toneladas cultivadas em mais de 15 mil hectares. No contexto brasileiro, São Paulo é responsável por mais de 50% da produção, com mais de 132 mil toneladas, produzidas em 6.502 hectares, segundo o IBGE. Em solo paulista, as regiões de Mogi Mirim (maior produtora), Ribeirão Preto, Ourinhos, São João da Boa Vista e Limeira, responderam, em 2019, por 66% da produção.

Comercialização e produção em expansão

Entre as diversas frutas comercializadas no Brasil, o abacate tem apresentado expressiva expansão no volume produzido nos últimos anos (2014, cerca de 157 mil toneladas/2019, mais de 240 mil toneladas – IBGE), o que pode ser explicado pela alta na demanda, principalmente pelo avanço das pesquisas nutricionais que desmistificaram a sua fama de vilão na saúde – por conta de seu teor de gordura – e mostram sua verdadeira face como fruta rica em nutrientes e “gordura boa”, alçando-o ao posto de superalimento e item essencial em todos os tipos de dieta, recomendado por profissionais de saúde e esportes.

Sobre o volume de comercialização da fruta, Hélio Satoshi Watanabe, engenheiro agrônomo do Centro de Qualidade de Hortigranjeiros, da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), informa que, em 2019, foram comercializadas 51.109,81 toneladas. “Em nível nacional, no mesmo período, dados do Programa Brasileiro de Modernização do Mercado Hortigranjeiro (Prohort), da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), nas Centrais Estaduais de Abastecimento (Ceasas), que fazem parte do sistema, foram comercializadas 135.148 toneladas”, informa o agrônomo, destacando que estatísticas da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) mostram que, em 2019, o Brasil exportou 10.297 toneladas.

Palavras de um extensionista e de um produtor sobre a cultura do abacate

Com mais de 35 anos de dedicação ao trabalho de extensão rural e assistência técnica na CDRS Regional Mogi Mirim, que concentra a maior produção de abacate no Estado, com mais de 110 mil plantas (novas e em produção em 2020), cultivadas em 125 hectares, o engenheiro agrônomo José Luiz Bonatti tomou tanto gosto pela cultura, que também passou a produzi-la no sítio da família. “O cultivo do abacate tem se mostrado uma boa alternativa de renda e diversificação de atividades, pois que requer tratos culturais moderados, além de possuir um mercado promissor e em expansão. Contudo o Brasil só poderá se tornar referência em produção e exportação de abacates com investimentos em marketing interno e externo, gestão da qualidade da produção, investimentos em pós-colheita, mitigação de riscos de produção, bem como melhoria na logística e infraestrutura da cadeia de produção de frutas no País”.

O agrônomo destaca também que a cultura do abacate pode ser bem explorada em pequenas áreas. “Se o agricultor souber utilizar os cultivares existentes no mercado (das mais precoces às mais tardias), poderá colher abacate o ano todo e ter uma renda praticamente mensal na propriedade”.

Miguel Bernardi é um exemplo de produtor que investiu na cultura como mais uma alternativa. Proprietário de um sítio em Mogi Mirim, onde produz citros e cereais, tomou a decisão, em 2009, de iniciar o plantio de abacate para diversificar as atividades e a renda, pois, segundo ele, “o plantio é fácil”. “Comecei com poucas plantas e hoje tenho uma área de quatro hectares cultivados com as variedades Geada e Breda, cuja produção é toda comercializada no mercado interno, por meio da Ceagesp. O abacate é uma cultura de fácil manejo, mas que precisa ter um olhar profissional na condução para se obter frutas de qualidade, que alcancem bons preços no mercado, principalmente no interno, onde a demanda e os preços têm sido crescentes”, diz o produtor, fazendo um alerta para quem deseja iniciar na atividade: “É preciso ter cuidados e recursos para manter as plantas até o começo da produção, pois os lucros só virão a partir do 4.° ou 5.º ano após o plantio, dependendo da variedade”.

 

Dicas do extensionista para quem produz e interessados em iniciar na atividade

  • Implementar a cultura em solos profundos e com boa drenagem, pois o abacateiro não se dá bem em solos rasos (podizolicos), produz melhor em latossolos; fazendo a correção deles, por meio de análises de solo.
  • Adquirir mudas de viveiristas idôneos, com garantia de ótima qualidade, pois é uma cultura que depois de implantada, vai ter uma vida útil de 30 a 40 anos. Para fazer o plantio das mudas no local definitivo, o pequeno agricultor tem que estar preparado tanto para realizar irrigação quanto fazer uso de sombreamento nos períodos mais quentes.
  • Sobre o espaçamento – se o pequeno agricultor adotar o manejo com podas, poderá fazer o plantio mais adensado, caso contrário o espaçamento deverá ser maior, variando de 8x8m até 10x10m.
  • Escolha de cultivares – atualmente, existem no mercado várias cultivares de abacate, sendo as principais Geada, Fortura, Margarida, Quintal, Ouro verde, Hass (avocado) e Breda. Sabendo utilizar estes cultivares, o agricultor pode colher abacate praticamente o ano todo; de dezembro, com a cultivar Geada, a novembro do ano seguinte, com a cultivar Breda.
  • Por se tratar de uma cultura que necessita de polinização cruzada, a presença de abelhas no pomar é obrigatória; então, na época da florada do abacateiro, o produtor tem que tomar muito cuidado quanto à utilização de defensivos agrícolas, utilizando preferencialmente os seletivos a insetos (abelhas). Caso não seja possível, utilizar os defensivos nos períodos em que as abelhas não estão em atividade (à tardezinha e no período noturno); para que a polinização seja eficiente, é preciso que o produtor intercale o plantio, usando variedades de comportamento floral (em relação ao tempo normal de abertura e fechamento das flores) diferentes, que são classificadas em grupos A e B.
  • O pequeno agricultor precisa estar ciente de que o abacateiro é uma cultura de porte alto, dessa forma os equipamentos para realizar os tratos culturais têm que ser adequados, caso contrário o manejo ficará comprometido. Outro fator importante é ter mão de obra especializada para realizar a colheita, a qual deve ser realizada com cuidado para evitar ferimentos que tornam o fruto inviável à comercialização, além de serem portas de entrada para doenças.
  • A produção média é de 400 a 500kg por pé na idade adulta, em uma área bem manejada. A época de colheita varia de acordo com a região e variedade cultivada.

 

Avocado: que abacate é esse?

O avocado é uma das muitas variedades de abacate que mais têm despertado interesse mundial, tendo como principal cultivar a Hass, desenvolvida na Califórnia (EUA). “Avocado é abacate em inglês. No Brasil, se popularizou chamar a cultivar Hass de avocado como marketing para diferenciá-lo das demais cultivares. Esse tipo de abacate tem como vantagem o pequeno porte que dá uma porção individual. Além disso, tem polpa cremosa, com pouca água e grande concentração de nutrientes. A sua casca mais grossa resiste melhor ao transporte e possui, em média, 20% de óleo, enquanto a maioria das cultivares consumidas tradicionalmente no Brasil têm menos de 10% de óleo”, explica Ednei, diretor do Núcleo de Produção de Mudas de São Bento do Sapucaí.

Muito valorizado nos mercados interno e externo, o avocado tem alcançado excelentes preços para quem produz. “Começamos a produzir avocado, cultivar Hass, por seu alto valor de mercado, principalmente na entressafra do abacate, no segundo semestre.  Como nosso sítio está em uma altitude média de 1.500m, estamos colhendo em novembro, que é o pico do preço; o quilo de avocado de qualidade tem sido comercializado atualmente na Ceagesp por, em média, R$ 20,00. Nosso carro-chefe é a atemoia, mas optamos pelo avocado porque, além de produzir em época diferente, é uma planta relativamente rústica, que requer cuidados moderados em relação a outras fruteiras e tem uma excelente produção:  temos árvores com 100kg de produção por pé. O avocado alcança preço melhor pela alta qualidade do fruto e uma pós-colheita interessante, podendo ser armazenado em câmara fria por até 25 dias”, explica a engenheira agrônoma Silvana Catarina Sales Bueno (recém-aposentada do Núcleo de São Bento do Sapucaí), que é produtora de avocado.

Riqueza na alimentação e nas indústrias cosmética e terapêutica

O abacate nunca esteve em tão alto conceito quanto atualmente. No entanto, como o modismo alimentar pode atuar de forma negativa e/ou positiva em um determinado produto, por décadas seu consumo foi visto com restrição por seu “excesso de gordura”. “Atualmente, o abacate tornou-se um alimento popular, deixando para trás a fama de ‘vilão’ e passou a ter aspectos nutricionais valorizados. É rico em gorduras ‘boas’, entre elas a monoinsaturada que é anti-inflamatória e que atua no aumento do HDL, considerado o colesterol bom. Além de gordura, é rico em vitaminas E, A, B1 e B2, bem como minerais, por exemplo magnésio, ferro, fósforo, cálcio. Ainda é fonte de antioxidantes como fitoesterol, lecitina e taninos responsáveis pela saúde cardiovascular, ajudando na desobstrução de vasos sanguíneos”, explica Denise Baldan, nutricionista da CDRS, avaliando que a mudança de conceito nutricional tem sido um dos fatores que tem pautado a expansão da produção de abacate.

Estudos recentes mostram que o abacate ainda oferece quantidades significativas de carotenóide e glutationa que também são antioxidantes e que atuam nos radicais livres, amenizando o estresse oxidativo, causador de diversas doenças. “A glutationa vem chamando atenção, devido à sua importância na proteção e possível ‘rejuvenescimento’ celular, fortalecimento do sistema imunológico, neutralizando a ação dos radicais livres e protegendo as células da peroxidação lipídica”, explica a nutricionista, destacando que o abacate também é rico em vitaminas E, A, B1 e B2, magnésio, ferro, fósforo, cálcio e sais minerais. Ainda é fonte de antioxidantes como fitoesterol, lecitina e taninos responsáveis pela saúde cardiovascular, ajudando na desobstrução de vasos sanguíneos. “Além disso, é uma fruta de baixo teor de frutose e possui apenas seis gramas de carboidratos em 100g”.

O sucesso da fruta – consumida no mundo em preparações salgadas, mas no Brasil ainda muito associada às sobremesas e vitaminas – tem sido notório. “A oferta de receitas com abacate e avocado, das mais simples às mais gourmetizadas, bem como o seu uso como base de molhos, em saladas etc., tem se multiplicado. A visibilidade da fruta, principalmente pela proliferação de restaurantes mexicanos, que vêm se tornando populares entre os brasileiros, também tem influenciado a sua maior utilização em pratos salgados. Além disso, a constatação de seu valor nutricional conquistou os integrantes do movimento fitness e esportistas que o alçaram ao patamar de um ‘super alimento’ para uma vida mais saudável, é um alimento funcional”, avalia Denise, que além de nutricionista é triatleta.

Além de preparações culinárias o óleo da fruta também vem sendo testado na fabricação de azeite. “Em minha região, um Lagar que faz azeite de oliva, na entressafra tem fabricado azeite de óleo de abacate, com características similares e, algumas, até melhores”, explica Silvana Bueno. As indústrias cosmética e terapêutica também têm reconhecido o seu valor, o que pode ser verificado pelo aumento de produtos disponibilizados nos últimos anos, que têm o abacate ou seu óleo como ingredientes principais.


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