Por Alceu Batista de Almeida Júnior
Entre os marcos mais singelos e simbólicos da história de Araçatuba está a antiga Capelinha da Rua dos Fundadores, atualmente situada na Avenida dos Araçás, no bairro Santa Luzia. Embora pequena em tamanho, a construção possui grande valor afetivo e cultural, preservando memórias da cidade e da religiosidade popular transmitidas ao longo de gerações. Acredita-se que a capelinha tenha sido erguida há mais de setenta anos, quando a antiga Rua dos Fundadores ainda apresentava características rurais e servia como estrada boiadeira paralela aos trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Naquele período, a ferrovia era o principal eixo de desenvolvimento de Araçatuba, impulsionando o crescimento urbano e econômico da região.
Segundo a tradição oral, o local onde se encontra a capelinha teria sido palco de um acidente fatal envolvendo a ferrovia. Essa origem está ligada a um costume bastante comum no interior paulista e em outras regiões do Brasil: a construção de pequenos oratórios, cruzes ou capelas em pontos onde ocorreram mortes repentinas ou trágicas. Esses espaços tornavam-se locais de oração, homenagem e lembrança dos falecidos. A ausência de registros oficiais sobre sua fundação contribuiu para o surgimento de diferentes versões sobre a história da capelinha. Não se conhece com precisão quem a construiu nem a identidade da pessoa homenageada. Entre os relatos mais difundidos, alguns afirmam que um jovem teria sido atropelado por um trem ao atravessar os trilhos. Outras narrativas apontam que a vítima seria uma mulher moradora das proximidades. Apesar das divergências, todas as versões concordam que o monumento foi criado para preservar a memória de uma morte trágica relacionada à antiga linha férrea.
Com o passar das décadas, Araçatuba transformou-se profundamente. A expansão urbana modificou a paisagem marcada pelos trilhos, estradas de terra e áreas rurais. Mesmo diante dessas mudanças, a capelinha permaneceu preservada, tornando-se um raro testemunho da cidade de outros tempos. Atualmente, a construção é vista por muitos moradores e pesquisadores como um importante elemento do patrimônio imaterial e afetivo de Araçatuba. Sua conservação não depende de proteção oficial, mas do respeito e do carinho da comunidade, que reconhece seu valor histórico e simbólico. Mais do que um simples oratório à beira da via, a Capelinha da Rua dos Fundadores representa a permanência da memória coletiva diante do avanço do tempo. Ela recorda uma Araçatuba ligada à ferrovia, às histórias transmitidas oralmente e à religiosidade popular que ajudou a formar a identidade cultural do interior paulista. Ainda hoje, permanece como um silencioso relicário da história local, onde fé, tradição e memória continuam unidas.
Alceu Batista de Almeida Júnior é advogado, memorialista e autor do Livro: Memórias de Araçatuba/SP.

