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terça-feira, agosto 16, 2022

Mercado de biodefensivos cresce mais de 70% no Brasil em um ano

DA REDAÇÃO – Brasília

A produção de produtos biológicos para controle de pragas e doenças agrícolas cresceu mais de 70% no último ano no Brasil, movimentando R$ 464,5 milhões ante R$ 262,4 milhões em 2017. O resultado brasileiro é considerado o mais expressivo da história do setor e supera o percentual apresentado pelo mercado internacional.
Em termos globais, o setor apresentou crescimento de 17% no mesmo período. Os dados detalhados sobre o desempenho do ano passado da indústria nacional de biodefensivos foram apresentados nesta quinta-feira (21) pela Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), considerando apenas as empresas associadas que representam 70% do mercado nacional.
O crescimento do mercado brasileiro de defensivos biológicos segue tendência mundial de redução do uso de agroquímicos para combater pragas e doenças nas lavouras. Em um país com alto índice de insetos devido ao clima tropical, o desafio dos agricultores é reduzir a aplicação dos pesticidas, principal método de manejo de pragas do país atualmente, para também reduzir o custo da produção e os riscos associados para a saúde humana e os recursos naturais.

O que é
O controle biológico faz parte do chamado Manejo Integrado de Pragas (MIP) e permite o uso de organismos vivos ou obtidos por manipulação genética para combater pragas e doenças provocadas por lagartas comuns, mosca, nematoides (vermes microscópicos), cigarrinha das raízes, broca da cana, ácaros e fungos e outros agentes nocivos para a agricultura.
Os produtos biológicos podem ser utilizados em qualquer cultura, desde frutas e verduras, até grãos, cana de açúcar, entre outros. Existem dois tipos de biodefensivos: os macrobriológicos, que consistem no uso de macroorganismos, como insetos, ácaros e outros inimigos naturais das pragas; ou microbiológicos, que se baseiam em bactérias, fungos e vírus.
Segundo Rose Monerrat, diretora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, os produtos mais usados no mercado são os microrganismos. “A procura tem sido muito grande e está crescendo. Segue uma tendência mundial, porque as exigências do mercado europeu estão fazendo com que este mercado cresça cada vez mais”, comenta.
O professor titular de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), José Roberto Parra, lista uma série de vantagens para o uso de biodefensivos, principalmente o aspecto ecológico e social dos produtos.
Entre os benefícios apontados pelo engenheiro agrônomo está a ausência de resíduos químicos nas culturas, uma vez que o Brasil exporta muitas commodities e o mercado internacional tem colocado cada vez mais restrições aos agroquímicos.
É indiscutível essa vantagem. Não tem problema de resíduos químicos e não há desequilíbrios biológicos. Quando você usa inseticidas, você mata esses agentes de controle biológico, que chamamos de inimigos naturais, então, o controle biológico não mata e não aumenta a resistência das pragas. E não tem problemas ambientais de contaminação do solo, da água, dos alimentos”, explica.

Resultados no campo
O manejo de controle biológico é realizado há mais de dez anos pela Fazenda Salgueiro da Serra, situada em Buritis, na região Noroeste de Minas Gerais. As primeiras experiências com produtos biológicos na fazenda do Grupo Agrosalgueiro, que atualmente planta soja, milho e feijão, começaram na década de 1990 e se intensificaram a partir de 2007.
“Na época, o pedido dos sócios era para produzir mais, gastar menos e, se possível, usar menos agroquímicos. Responsável pela compra de insumos, planejamento técnico e experimento agrícola do grupo, a única forma que eu enxerguei para trabalhar esses objetivos foi o biológico e conceitos de agroecologia. Com ingredientes ativos, controle químico eu sei que não teria muita chance de reduzir custo, porque todo ano estávamos aumentando doses ou números de aplicações e com o biológico foi o contrário: nós reduzimos doses e número de aplicações”, conta Rogério Aoyagui, consultor técnico sobre biológicos e herdeiro acionista do grupo Agrosalgueiro.
O engenheiro agrônomo explica que, para reduzir doenças de solo, da planta e do sistema como um todo, o manejo biológico tem se tornado uma ferramenta fundamental. O que tem sido usado em maior escala na fazenda são os microorganismos probióticos. O grupo também utiliza inimigos naturais, agentes biológicos promotores de nitrogênio e compostagens líquidas à base de resíduos animais como fonte de nutrientes e biorremediador do solo. Manejo de sistemas e outras tecnologias já desenvolvidas também foram inseridos para contribuir com a melhoria do processo produtivo.
“Atualmente conseguimos reduzir e, em alguns casos, substituir agrotóxicos. E, obviamente, atingimos a meta inicial de redução de custo. Aumentou a produtividade e reduzimos a carga de químicos. Estávamos um pouco receosos, mas o resultado foi bem interessante. É difícil aceitar a mudança e a quebra de paradigmas de técnicos, consultores, proprietários e funcionários, esse foi um dos maiores desafios. Posso seguramente dizer que o manejo biológico é um caminho sem volta, uma ferramenta importantíssima para a revolução agrícola do mundo”, comenta Aoyagui.

Expansão
Enquanto o mercado convencional de defensivos agroquímicos tem apresentado sinais de estagnação, com resultado recente de queda global de 6% na produção (US$ 64 bilhões), o saldo mundial do controle biológico em 2018 foi 17% maior que o alcançado no período anterior, de US$ 3,8 bilhões.
No Brasil, em fevereiro do ano passado, o mercado de produtos biológicos nacional movimentou US$ 164,9 milhões, o que corresponde a quase R$ 528 milhões, segundo a consultoria Agribusiness Intelligence/Informa. O controle biológico representa 5% da produção geral de controle de pragas e a América Latina é a região que apontou crescimento mais acelerado nesta área.
Para 2020, a expectativa é que o setor de biológicos fature no mundo US$ 5 bilhões e que em 2025 chegue a US$ 11 bilhões, segundo outra consultoria, a Dunham Trimmer – International Bio Intelligence.
Registros
Outro fator que tende a favorecer o crescimento dos biológicos é o processo mais simplificado de registro dos produtos, que levam prazo menor para serem liberados. Até o dia 22 de fevereiro, o Mapa tinha 1.187 produtos químicos aguardando registro, sendo que a demanda mais antiga da fila é de 2009. Para registro de biológicos, a fila tinha 17 pedidos pendentes e outros seis para agricultura orgânica.

Histórico
A primeira ocorrência de controle biológico registrada no mundo é de 1888, quando os Estados Unidos importaram um inseto da Austrália para controlar uma praga do tipo cochonilha, que afeta lavouras de citros. No Brasil, a primeira tentativa de importação de um inimigo natural de pragas ocorreu em 1921.
Na época, o país importou dos Estados Unidos uma vespa para controlar uma praga que atingia o pessegueiro, mas a aplicação não foi bem-sucedida. Em seguida, ocorreram outras tentativas de controle de pragas de pastagens com insetos importados, principalmente a partir das décadas de 1950 e 1960, até o desenvolvimento do biocontrole nas lavouras de cana-de-açúcar.

Outros desafios
O Brasil tem outra peculiaridade que dificulta a rápida disseminação dos produtos biológicos. Além do número elevado de pragas devido ao clima tropical, o país planta em grandes áreas, enquanto que na Europa o uso de biodefensivos se fortaleceu mais rapidamente, porque as áreas agricultáveis são menores.
A diferença teve impacto no desenvolvimento das empresas produtoras de controle biológico. No continente europeu as empresas de biológicos surgiram há aproximadamente 50 anos, e no Brasil as fábricas foram impulsionadas já nos anos 2000.
“O grande problema é o nosso tipo de agricultura, ou seja, agricultura de grandes áreas. Por exemplo, há produtor que tem área de 100 mil hectares com soja na Bahia ou em Goiás, isso é uma área imensa. Então, você não pode transferir o que se faz na Europa para o Brasil. O Brasil tem uma condição diferente”, comenta Parra.
O especialista destaca que o Brasil atingiu a liderança na agricultura tropical nos últimos 40 anos e tem condições de vencer com excelência o desafio de desenvolver um modelo de controle biológico específico para região tropical.
“Esses desafios vão sendo transpostos à medida em que a gente vai melhorando os estudos, oferecendo mais opções e transferindo a tecnologia”, sugere o professor.

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