*Marcelo Teixeira
Já escrevi mais de uma vez sobre aquele que considero o esporte preferido do ser humano, que é o julgamento alheio. Mantenho posição. Mas concluo que próximo a ele, ali no segundo lugar, está a notável capacidade de criar problemas quando e onde eles não existem. Talvez isso ocorra por haver tempo de sobra, falta de bom senso, por soberba ou por tudo isso junto.
Fato é que, por mais que o Homo sapiens se orgulhe da sua racionalidade, me impressiona a habilidade de gerar conflitos gratuitos em situações até então serenas. Não bastam os desafios naturais da existência — a saúde frágil, os ciclos econômicos, o envelhecimento inevitável. Precisamos, também, sofisticar a angústia, arquitetar tormentos, cavar abismos onde havia apenas chão plano.
É claro que a inteligência humana nos deu a capacidade de prever riscos e agir com prudência. Mas, como todo instrumento poderoso, esse dom também pode ser pervertido. Em vez de usarmos a reflexão para resolver dilemas reais, com frequência a usamos para cultivar paranoias, alimentar ressentimentos e inaugurar conflitos sem necessidade. Um olhar enviesado, um silêncio mal interpretado, um post neutro nas redes sociais — tudo vira matéria-prima para construções mentais que desafiam qualquer lógica.
Na vida pessoal, esse fenômeno é recorrente. Quantos casamentos, amizades e relações familiares foram minados não por grandes traições, mas por suposições e projeções? Criamos narrativas inteiras a partir de detalhes insignificantes – completa e absolutamente insignificantes. Sofremos por antecipação, por imaginação e, muitas vezes, por orgulho e vaidade. Como escreveu o filósofo Sêneca, “sofremos mais na imaginação do que na realidade”.
No ambiente político e social, o comportamento se intensifica. A polarização que assola o mundo não é, muitas vezes, fruto de divergências reais, mas de construções simbólicas que servem mais ao ego do que à razão. As redes sociais são a ágora moderna — não de ideias, mas de indignações performáticas. Pessoas que nunca se encontraram na vida tornam-se inimigas por conta de rótulos e generalizações. A paz, por vezes, é vista com desconfiança: “se está tudo bem, algo está errado”.
Esse impulso para o conflito não é novo. A história está repleta de episódios em que nações se lançaram à guerra não por necessidade, mas por orgulho ferido, má interpretação de fatos ou puro desejo de poder. O ser humano é o único animal capaz de destruir uma ponte apenas porque sente que ela foi construída sem a sua permissão.
E por que somos assim? Imagino que a explicação porque o vazio assusta. Quando não há conflito, há silêncio. E isso obriga à introspecção, à humildade, à aceitação da transitoriedade das coisas. Criar problemas pode ser, paradoxalmente, um antídoto contra o pavor de encarar a si mesmo. Um ruído externo que nos poupa do eco interior.
Não se trata, claro, de negar que o mundo tem dilemas legítimos. O problema está em transformar o banal em crise e o incômodo passageiro em catástrofe existencial. Há uma sabedoria profunda na serenidade. E, talvez, um sinal de maturidade esteja em aprender a não atiçar incêndios imaginários. O estoico Sêneca nos ensina a importância de controlar a mente e não deixar que os medos e preocupações excessivas gerem sofrimento desnecessário.
O desafio é escolher o silêncio quando o ruído parece mais sedutor. Escolher o diálogo quando a discórdia rende mais curtidas. E, acima de tudo, reconhecer que, muitas vezes, o maior adversário da paz… somos nós mesmos.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa da Cadeira 11

