Inculta e vilipendiada

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“Última flor do Lácio, inculta e bela…”, é o primeiro verso do famoso poema de Olavo Bilac, em homenagem à derradeira língua originada no Latim. Essa flor tem sido maltratada. Já não merece respeito e afeição de parte dos que deveriam cultuá-la.
Obviamente, um idioma é algo vivo e dinâmico. Submete-se às mutações temporais e às vicissitudes de múltiplas influências. Nada obstante, ela tem uma estrutura e uma lógica e a linguagem erudita é atestado muito consistente do grau civilizatório de uma comunidade.
O advento das TICs – Tecnologias da Informação e Comunicação vieram para ficar e contribuem para a criação de um dialeto digital que às vezes lembra o português. Nada contra abreviações, que fazem ganhar tempo. O importante é a mensagem. Todavia, desprezar a construção milenar daqueles que foram aprimorando a língua, em nada contribui para fortalecer o sentido de pertencimento.
“Minha Pátria é minha língua”, disse Fernando Pessoa. “Pouco se me dá se Portugal for invadido, desde que não mexam comigo”. Ocorre que hoje, o português falado no Brasil foi desnaturado. Vence a onomatopeia, a construção exótica de repetição de letras, para substituir a indigência vernacular.
Não é fácil falar um bom português, mas o treino é o que habilita o falante a manejar adequadamente seu idioma. Escrever e ler, ler e escrever, num verdadeiro moto-contínuo, é o que faz com que se proteja o bom linguajar. Os vários analfabetismos que sufocam os brasileiros vão desde o mais nefasto, aquele em sentido estrito de quem não consegue ler ou escrever, até vários graus de comprometimento da capacidade de se exprimir com palavras.
Percentual imenso dos brasileiros não consegue interpretar um texto, não apreende a ideia principal de um parágrafo, menos ainda reproduzir, com outras palavras, a mensagem inserta naquilo que acabou de ler. Outra falha é o uso de palavras estrangeiras, quando os dicionários disponíveis mostram mais de meio milhão de verbetes, não faltando termos para designar qualquer coisa ou situação utilizada no diálogo.
Até mesmo universitários adquirem vícios como o gerundismo, recorrem à panaceia “tipo”, em irritante reiteração, qual muleta para substituir a sua evidente falta de vocabulário, reduzido a miserável acervo de poucos exemplares.
O Brasil produziu literatura de altíssima qualidade, se não se quiser servir-se daquela edificada pelos nossos colonizadores. Ler Machado de Assis e Lygia Fagundes Telles, é uma verdadeira aula para quem pretender dominar o idioma nacional.
O letramento precisaria ser uma política estatal objeto de permanente campanha institucional, a conclamar todas as pessoas cultas a se congregarem num projeto salvífico desse patrimônio intangível que, em angustiante velocidade, é destruído a cada dia, ao lado de outras riquezas das quais estes tempos sombrios já abriram mão.

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.


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