O Efeito Dunning-Kruger

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*Marcelo Teixeira

Por uma questão de cidadania e de responsabilidade, nestes tempos sombrios de polarização política, de intolerância e de falta de empatia, ao deparar-se com pessoas que inacreditável e infelizmente são negacionistas da pandemia de Covid-19, cabe a quem reconhece e valoriza a comunicação como ferramenta de disseminação de conhecimento (seja um profissional da área ou não), insistir em tocar as mesmas teclas: propor a busca de dados e fatos em fontes confiáveis (não em perfis robotizados e grupos de mídias sociais), sugerir que se ouça a ciência (não quem faz live ou concede coletiva de imprensa não tendo sequer vocabulário informal – que dirá técnico – para pregar a sua ideologia), e que se desenvolva o senso crítico (não a orientação pelo senso comum). Trata-se de uma luta inglória, mas necessária.

 

É dar murro em ponta de faca, pois a sensação é que o esforço do emissor da mensagem não se propaga, não chegando à outra ponta. Apesar da argumentação, e de saber que os interlocutores têm conhecimento e discernimento para ao menos relevar o que digo, percebe-se que há desperdiço de tempo em falar para quem não quer escutar. A cada nova conversa, é como se nada do que se expôs em diálogos anteriores tenha sido minimamente assimilado. E, veja bem, não se trata de convencimento ideológico, mas de levar algum nível de sensatez para, quem sabe, iniciar a desconstrução do discurso de ruptura, de ódio, e, por vezes, de totalitarismo (tanto de direita quanto de esquerda).

 

O desalento com a situação nos leva a refletir sobre a motivação de alguém que, em tendo acesso à informação, por vezes com titulação de nível superior ou alta patente, opta por uma convicção baseada dados rasos e, diria até na imensa maioria das vezes, incorretos (pode chamar de fake news). Uma explicação psicológica para esta obstinação pode ser dada pelo Efeito Dunning-Kruger, um fenômeno que leva indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto a acreditar que sabem mais que outros superiormente preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; a sua incompetência restringe a sua capacidade de reconhecer os próprios erros. Estas pessoas sofrem de superioridade ilusória.

 

Muito provavelmente, os comunicadores (reforço, diplomados ou não), não devam ser pretensiosos a ponto de querer mudar o mundo (veja bem, em se falando em probabilidade, sempre existem chances), mas não podem desistir da missão de mostrar aos incautos que há luz do lado de fora da caverna. No entanto, exercite-se o entendimento de que há casos clínicos para os quais o Efeito Dunning-Kruger explica muita coisa. Nestes casos, é melhor não se dar ao trabalho de tocar tambor para maluco dançar.

 

*Marcelo Teixeira é jornalista e empresário do setor de comunicação corporativa

 


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