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quarta-feira, agosto 10, 2022

O Corpo de Cristo

CINTHYA NUNES

Eu escutava os murmúrios que aos poucos iam fazendo sentido. Eram orações. A procissão passava na rua de casa e da janela do quarto onde eu dormia com minhas irmãs, espiávamos as pessoas que, de madrugada, seguiam por vários quarteirões rogando ao Criador.
Os tapetes de Corpus Christi enfeitaram as ruas e de algumas cidades nas quais passei minha infância e minhas lembranças daquela época são mais afetivas do que religiosas. Sei que até hoje é uma tradição que se manteve em cidades pelo interior do Brasil, inclusive. Trazida ao Brasil no período da colonização, a prática portuguesa remete à acolhida de Jesus em Jerusalém.
Houve um tempo em que participei dos preparativos para o feriado religioso, ajudando a espalhar serragem, palha e outros materiais coloridos que iam dando forma a símbolos cristãos ligados à comunhão, ao Corpo de Cristo. Mas além de todo significado da religião, sempre era uma expressão artística e reconheço agora que as cores e as formas é que mais me encantavam.
Sem dizer que eu ficava com pena de ver todo aquele lindo trabalho pisoteado pelas pessoas que no feriado de Corpos Christi seguiam sobre os tapetes multicores entoando a Ave-Maria e o Pai-Nosso, endereçando, em voz alta, suas súplicas a Deus. Horas depois e tudo estava destruído, pois ao pó a arte também retorna.
Minha lembrança mais forte, entretanto, é do som das pessoas orando, passando pela rua de nossa casa, nas primeiras horas da manhã, quase sempre fria. Fecho os olhos e sou capaz de me transportar para aqueles momentos. Enrolada nas cobertas, eu abria um pouco a janela para ver se via rostos conhecidos entre os fiéis, principalmente o de minha tia Edna que, suspeito, também esperava esse momento, quase sempre acenando para mim, em meio aos demais.
Meu repertório de palavras é insuficiente para descrever a cena que vejo transcorrer diante da tela de memórias dos meus olhos, mas as vozes que iam entoando baixinho as orações, em conjunto, resultam em algo diferente, tal como um mantra que ia acordando o dia, numa promessa de tempos melhores.
Embora eu saiba que em algumas cidades ainda existam procissões como aquelas, há sentimentos que jamais terão lugar novamente. No meio dos fiéis não estarão mais as pessoas que me eram tão caras. Talvez elas ainda continuem orando e caminhando, agora rumo a destinos que não somos capazes de ver ou entender, sobre caminhos que não se desfarão sob seus pés.
Quem sabe se eu semicerrar os olhos e esticar meus ouvidos, em uma madrugada dessas, eu possa ouvir os caminhantes em prece e, entre o dormir e o sonhar, uma janela possa se abrir, mágica e discretamente. Então, se a realidade não me trair, talvez haja acenos, reconhecimentos e sorrisos. E eu os verei prosseguir, uma vez mais, resguardados em minhas memórias, ao som das orações, guardiões das minhas saudades.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e viajante do tempo – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br

 

 

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