*Marcelo Teixeira
Nos bastidores da gravação do PodLer, podcast da Academia Araçatubense de Letras (AAL), confidenciei ao meu confrade Antonio Luceni a minha dificuldade em entender a poesia dos poemas. Trata-se de uma contradição que me acompanha desde sempre e que, por honestidade intelectual, preciso confessar publicamente.
Deixe-me explicar essa aparente heresia. Quando ouço Miles Davis arquejar seu trompete numa madrugada de Kind of Blue, algo se comunica comigo de maneira visceral, direta, sem a necessidade de qualquer mediação racional. Quando observo a pincelada de Van Gogh transformar um céu em angústia palpável, ou quando acompanho o movimento de uma bailarina cujo corpo parece narrar o inenarrável, entendo imediatamente a linguagem. A poesia da existência — aquela que habita o gesto, o silêncio, a cor e o ritmo — chega até mim com uma clareza quase desconcertante.
Mas diante de um poema escrito, sinto-me estrangeiro dentro da própria língua que habito desde que nasci.
Não se trata de ignorância vocabular. Li o suficiente para saber que palavras não me intimidam. O problema é outro, mais sutil e, por isso, mais perturbador: a poesia escrita parece operar numa frequência que meu aparelho receptor simplesmente não capta. Drummond me olha da página com aquele “no meio do caminho tinha uma pedra” e eu respeitosamente me pergunto: e daí? Fernando Pessoa desdobra-se em heterônimos e eu acompanho o raciocínio filosófico, mas a emoção — aquela que os leitores verdadeiros descrevem como um tremor no peito — não comparece.
É curioso, porque não falta sensibilidade. Choro com Chaplin. Rio com Cervantes. Paraliso quase que em êxtase diante de uma fotografia de Sebastião Salgado. A emoção estética está presente, viva e operante. Mas quando a emoção precisa atravessar versos, estrofes e métricas para chegar até mim, alguma coisa se perde no trajeto, como uma mensagem de rádio que sofre interferência justamente no momento mais importante da transmissão.
Talvez o problema seja exatamente esse: a palavra escrita, para mim, carrega peso demais de significado literal. Quando leio “amor”, penso em amor — com toda a sua bagagem semântica arrumada e catalogada. O poeta, porém, usa “amor” para falar de perda, de tempo, de identidade ou de Deus. Esse deslocamento que para o poeta é libertação, para mim é desorientação.
Confesso tudo isso sem qualquer vergonha, mas com genuína perplexidade. Afinal de contas, quem lida com história sabe que o mais desconcertante dos mistérios não está nos arquivos empoeirados do passado, mas naquilo que pulsa bem diante dos nossos olhos e, ainda assim, recusa-se a ser completamente compreendido.
A poesia escrita é, para mim, esse mistério. E talvez seja assim que deva permanecer.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

