*Marcelo Teixeira
Ao ver um sonho de creme no balcão de uma padaria, lembre-me que dia desses, em um café qualquer da rodoviária de Araçatuba, ouvi do meu amigo Jean Oliveira que, ao menos uma vez por mês, ele se “presenteia” com um doce desses. Entendi tratar-se de uma espécie de compensação na fase adulta pela carência na infância, quando via um belo sonho no balcão e não tinha condições de comprar. Jornalista profissional diplomado como eu, Jean também é turismólogo e agora, psicólogo. Sonhos não lhe faltam.
Há algo de simbólico nesse pequeno ritual de comprar um sonho. A infância nos ensina, muitas vezes sem palavras, que nem tudo o que desejamos está ao nosso alcance. O tempo passa, a vida muda, conquistamos alguma autonomia e, de repente, aquilo que antes era uma impossibilidade transforma-se em um pequeno prazer. Não é apenas sobre açúcar, creme ou massa açucarada. É sobre a possibilidade de revisitar o passado sem carregar aquelas limitações. É sobre permitir que o adulto ofereça à criança que foi aquilo que ela não pôde ter.
Jean parece ter compreendido, ainda que talvez não tenha formulado nesses termos, uma lição importante: não devemos abandonar os nossos desejos apenas porque a realidade, em determinado momento, nos impõe limites.
A trajetória profissional dele também guarda essa simbologia. Três formações que, embora distintas, encontram um ponto de convergência: a curiosidade pelo ser humano, as suas histórias, os seus caminhos e as suas contradições. O jornalismo procura compreender e contar a realidade; o turismo amplia horizontes e aproxima culturas; a psicologia investiga aquilo que nem sempre conseguimos expressar em palavras: os sentimentos, as motivações e os conflitos que habitam cada indivíduo.
Não se trata, portanto, de uma coleção de diplomas. Trata-se de uma disposição para continuar aprendendo. Em tempos nos quais tanta gente parece convencida de que já sabe o suficiente, voltar aos bancos escolares é também um exercício de humildade. Afinal de contas, amadurecer não significa encerrar possibilidades, mas descobrir que ainda existem muitas portas a abrir.
Há quem passe a vida contabilizando aquilo que não conseguiu realizar. Outros preferem transformar cada conquista em ponto de partida para uma nova caminhada. O meu amigo parece pertencer a esse segundo grupo. E talvez esteja aí a relação mais bonita entre o doce que tanto aprecia e os projetos que ainda alimenta.
Um sonho de padaria é passageiro. Dura alguns minutos, talvez menos. Os sonhos da vida, entretanto, exigem paciência, disciplina, renúncia e coragem. Alguns precisam de anos para ganhar forma; outros permanecem como horizontes, orientando nossas escolhas.
No fundo, a vida talvez seja isso: nunca perder a capacidade de desejar. Que Jean continue comprando os seus sonhos de creme, não por nostalgia ou compensação, mas pela alegria de celebrar o caminho percorrido. E que jamais lhe faltem sonhos maiores, daqueles que não cabem na vitrine de uma padaria, mas que dão sentido à existência.
Porque há uma diferença fundamental entre envelhecer e amadurecer: o primeiro ocorre no ritmo do calendário; o segundo depende da nossa disposição de continuar sonhando.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado, escritor e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a cadeira número 11

