Por Alceu Batista de Almeida Júnior
Os moradores mais antigos de Araçatuba certamente ainda se recordam, ou ao menos ouviram narrar, um dos episódios criminais mais trágicos e chocantes da história da cidade, ocorrido em 1951, na Rua Aquidabã. O caso foi relatado por Fabriciano Juncal em sua obra: A Verdadeira História de Araçatuba, tornando-se parte da memória popular araçatubense. Segundo os relatos da época, existia uma rivalidade constante entre alguns moradores daquela rua, marcada por discussões frequentes e desentendimentos entre vizinhos. Em meio a esse ambiente de tensão, surgiu um plano de vingança cruel, que acabaria mergulhando diversas famílias em luto e causando enorme comoção em toda a cidade.
Um dos envolvidos era um homem conhecido pelo apelido de “Abissínio Preto”, descrito como alguém de temperamento explosivo e comportamento agressivo, pouco estimado pela vizinhança. Ele vivia um relacionamento conturbado com sua companheira, marcado por sucessivas brigas. Quando a mulher decidiu abandoná-lo, Abissínio passou a atribuir a separação à influência de uma vizinha, alimentando um sentimento obsessivo de vingança. Movido pelo ódio, passou então a preparar um atentado de grandes proporções. Utilizando conhecimentos de eletrônica e de pirotecnia, confeccionou artefatos explosivos improvisados com carcaças de motores, pedaços de canos e outros materiais metálicos. Os dispositivos foram instalados em pontos estratégicos da residência da vizinha e conectados por um longo estopim. Além disso, posicionou um ferro elétrico ligado sobre uma lata de vinte litros de gasolina, criando um mecanismo destinado a provocar incêndio e destruição ainda maiores.
Na noite do crime, Abissínio acendeu o estopim e fugiu do local. O destino, porém, evitou que a principal alvo estivesse na residência naquele momento, pois ela participava de um baile de inauguração de um clube esportivo nas proximidades. Pouco tempo depois, violentas explosões romperam o silêncio da noite araçatubense, seguidas de um intenso clarão que assustou toda a vizinhança. A casa foi praticamente destruída, reduzida a escombros, e a tragédia resultou em mortes e feridos, causando profunda consternação na população. Entre as vítimas fatais encontrava-se um oficial de justiça, lembrado pela coragem demonstrada ao tentar impedir uma explosão ainda maior. Segundo os relatos, ele procurou desligar o ferro elétrico colocado sobre a lata de gasolina, mas acabou atingido pela tragédia e perdeu a vida no local.
Após o atentado, o criminoso fugiu da cidade, sendo localizado no dia seguinte em um bar na estrada da Serrinha, no município de Guararapes. Antes de ser preso, ingeriu uma grande quantidade de veneno, morrendo pouco depois. Ainda segundo Fabriciano Juncal, deixou uma extensa carta na qual procurava justificar o ato insano que chocou Araçatuba e marcou definitivamente a memória histórica do município.
Alceu Batista de Almeida Júnior é advogado, historiador e autor do Livro: “Memórias de Araçatuba.”

