Alceu Batista de Almeida Júnior
Durante mais de duas décadas, um dos personagens mais queridos do Zoológico Municipal Dr. Flávio Leite Ribeiro foi um gigantesco hipopótamo chamado Miltão. Para milhares de crianças, famílias e estudantes que visitaram o parque, ele representava a principal atração do zoológico e tornou-se um dos animais mais lembrados da história de Araçatuba. Com cerca de duas toneladas e um comportamento que misturava imponência e irreverência, conquistou um lugar especial na memória afetiva dos araçatubenses.
Miltão chegou ao zoológico em 24 de abril de 1989, transferido por doação do Zoológico de São Paulo. Desde os primeiros dias, despertou enorme curiosidade do público. Sua presença na lagoa era parada obrigatória durante excursões escolares e passeios de fim de semana. Ao longo dos anos, tornou-se o verdadeiro símbolo do parque, fotografado por milhares de visitantes e lembrado por gerações que cresceram frequentando o local. Além do porte impressionante, Miltão ficou famoso por um comportamento típico dos hipopótamos que divertia e surpreendia os visitantes. Ao defecar, girava rapidamente a cauda, espalhando as fezes em todas as direções. Muitos acabavam recebendo um inesperado “banho”, o que provocava risadas e correria. Quem viveu essa época dificilmente esquece dessas cenas. Eu mesmo fui atingido por essa “travessura” em mais de uma ocasião, experiência que hoje recordo com bom humor.
Quando morreu, em 21 de julho de 2015, Miltão tinha 37 anos, idade superior à expectativa média da espécie na natureza, estimada entre 25 e 30 anos. Sua longevidade refletia os cuidados veterinários recebidos durante sua permanência em Araçatuba. Naquela manhã, por volta das nove horas, funcionários encontraram o animal sem vida em seu recinto. A necropsia, realizada por especialistas da Faculdade de Medicina Veterinária da Unesp de Araçatuba, revelou uma causa alarmante: Miltão havia ingerido diversas sacolas plásticas e outros resíduos, formando um bloqueio entre o estômago e o intestino, que impediu a passagem dos alimentos. Os veterinários concluíram que esse material provavelmente havia sido lançado por visitantes dentro da lagoa, misturado aos alimentos oferecidos de forma inadequada ao animal.
A morte de Miltão evidenciou um problema frequentemente ignorado nos zoológicos: o risco causado pelo descarte irresponsável de lixo e pela alimentação inadequada dos animais. O caso ganhou repercussão nacional, sendo noticiado por jornais, emissoras de televisão e portais de notícias, além de estimular debates sobre educação ambiental, fiscalização e melhorias na gestão dos zoológicos brasileiros. Na mesma época, o Zoológico Municipal de Araçatuba passou por avaliações e discussões sobre suas condições estruturais, fortalecendo reivindicações por investimentos, modernização e maior proteção aos animais. A história de Miltão tornou-se um símbolo da necessidade de conscientização dos visitantes e da importância de preservar a vida silvestre sob cuidados humanos.
Alceu Batista de Almeida Júnior é advogado, memorialista e autor do livro Memórias de Araçatuba.


