Por Alceu Batista de Almeida Júnior
Antes da existência da cidade, a região onde hoje está Araçatuba era um território de mata fechada, rios preservados e domínio dos caingangs, povo originário que habitava e protegia essas terras. A transformação do sertão começou em 1904, com a criação da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (N.O.B.), empreendimento financiado por capitais brasileiros e franco-belgas e concebido para conectar Bauru ao Rio Paraná, integrando o interior ao restante do país.
As obras da ferrovia tiveram início em 1905, sob direção dos engenheiros Sílvio Saint Martin e Heitor Legru. O primeiro trecho, entre Bauru e Presidente Pena (hoje Cafelândia), foi inaugurado em 1910. Entretanto, anos antes, os trilhos já avançavam entre Cafelândia e o Córrego Azul, marcando a presença dos primeiros acampamentos ferroviários.
A construção da Noroeste foi marcada por enormes dificuldades. A mata densa, o clima severo, a malária e os conflitos com os caingangs tornaram o avanço lento e arriscado. Operários viviam em acampamentos improvisados, sujeitos a ataques, doenças tropicais e à temida “úlcera de Bauru”. Episódios violentos, como os registrados em Água Branca, Birigui, Baguaçu e na própria região de Araçatuba, revelam a resistência dos caingangs diante da ocupação de seu território. A pacificação definitiva ocorreu apenas em 1914, sob a liderança do então Major Cândido Mariano da Silva Rondon.
Um dos casos mais emblemáticos desse período foi o ataque que feriu o engenheiro Cristiano Olsen durante a demarcação de glebas da Fazenda Baguaçu. Barracões foram incendiados e turmas de trabalho, dizimadas. Ainda assim, milhares de operários seguiram adiante, impossibilitados de abandonar a obra e movidos pela necessidade. Entre eles, circulava a expressão: “Quem entra no inferno não sai.”
Apesar das adversidades, os trilhos avançaram até alcançar, em 1910, o quilômetro 280, ponto exato onde surgiria Araçatuba. À medida que o mato abria espaço para a ferrovia, uma clareira começou a servir de base para trabalhadores, comerciantes e pioneiros. No ano seguinte, os trilhos chegaram ao rio Tietê, no Salto das Cruzes, e mais tarde atingiram Itapura, que desde 1889 mantinha uma colônia militar e marcava o limite da presença estatal no extremo oeste paulista.
Com a ferrovia pronta, vieram famílias e desbravadores que lançaram as bases do novo povoado. Entre os primeiros moradores e empreendedores destacam-se Vicente Franco Ribeiro, Carolino de Oliveira, Manoel da Silva Prates, Ângelo Pavan, Coronel Eliziário de Lemos, Augusto Barbosa de Moraes, Dr. Francisco Vieira Leite, José Rister, Ludgero Cardoso, Cândido Prado de Souza, Hermílio de Magalhães Pinto, Manoel Pereira Mil Homens, os irmãos Viol, os Geraldi, Paulo Biagi, Abrão Cury, Manoel Pedroso e dona Joaquina, entre outros nomes que contribuíram diretamente para a formação do núcleo urbano.
Araçatuba nasceu, portanto, como um assentamento ferroviário que rapidamente se transformou em polo de ocupação e desenvolvimento. A ferrovia foi sua espinha dorsal, responsável por atrair moradores, investimentos e serviços. O que começou como um ponto de apoio operacional tornou-se destino definitivo para centenas de famílias. A partir da chegada dos trilhos, o sertão deu lugar a uma cidade que cresceria impulsionada pelo comércio, pela agricultura e pela circulação constante proporcionada pelo trem.
Alceu Batista de Almeida Júnior é advogado, historiador e autor do Livro: Memórias de Araçatuba”.

