*Marcelo Teixeira
Acabo de ler A Humanidade em Busca de Si – Um encontro entre Marcelo Gleiser e Leandro Karnal, obra da coleção Segredos da Vida da Editora Record. A obra constitui um exercício disciplinado de reflexão sobre os grandes eixos que moldam a experiência humana. Dividido em quatro partes — Sobre a verdade, Sobre a criatividade, Sobre a ciência e a religião e Sobre a liberdade — o livro combina a precisão argumentativa de Gleiser com a capacidade de interpretação histórica de Karnal. O resultado é um diálogo estruturado, sóbrio e intelectualmente produtivo, que ilumina perguntas centrais sobre quem somos e como pensamos.
Na seção dedicada à verdade, os autores operam com clareza conceitual. Gleiser reforça a ideia de que o conhecimento humano é provisório, condicionado por modelos que se aperfeiçoam ao longo do tempo. Karnal insere esse movimento no campo da história, lembrando que narrativas absolutas sempre serviram mais para controlar sociedades do que para explicar o mundo. A convergência entre ambos está na defesa de uma ética do questionamento. O livro, aqui, se destaca por evitar simplificações: a verdade não surge como entidade estática, mas como processo investigativo. Esse enquadramento evita o conforto dos slogans e sustenta uma abordagem intelectualmente madura.
A parte dedicada à criatividade se mostra igualmente robusta. Gleiser adota uma leitura evolutiva da imaginação humana, apontando-a como capacidade adaptativa. Karnal explora o aspecto civilizacional da criatividade, indicando como a produção simbólica molda identidades, crenças e modelos de convivência. O diálogo entre ciência e humanidades gera um mapa coerente de como o ato criativo se manifesta tanto em experimentações científicas quanto na elaboração de narrativas culturais. A obra se distancia do romantismo habitual e reposiciona a criatividade como disciplina, resultado de método, atenção e persistência.
No eixo ciência e religião, o livro alcança um dos seus pontos de maior consistência. Gleiser refuta a falsa dicotomia entre racionalidade científica e espiritualidade, sustentando que ambas buscam sentido, ainda que por caminhos distintos. Karnal acrescenta densidade histórica ao tema, demonstrando como sociedades sempre combinaram razão e mistério. O mérito do texto está em evitar polarizações artificiais. Em vez disso, há uma leitura pragmática: ciência e religião são dispositivos humanos para enfrentar a finitude e projetar significados. A argumentação é direta, sem concessões a discursos dogmáticos.
Por fim, em liberdade, os autores formulam uma síntese que dialoga com o cenário contemporâneo. Gleiser destaca a responsabilidade individual como eixo da autonomia. Karnal lembra que, historicamente, a liberdade sempre foi negociada dentro de estruturas de poder. O encontro dessas perspectivas gera uma definição funcional: liberdade é escolha, mas também é limite, contexto e consequência. A reflexão é objetiva e evita abstrações improdutivas. Trata-se de uma defesa consciente do pensamento crítico e do protagonismo individual.
O livro se impõe como obra clara e metodológica, articulando contribuições complementares sem recorrer a excessos retóricos. A força do texto está na capacidade de produzir reflexão acessível sem abdicar de rigor. Ao final, A Humanidade em Busca de Si entrega exatamente o que promete: um diálogo lúcido entre dois pensadores que, ao examinar temas fundamentais, devolvem ao leitor a tarefa de pensar com mais disciplina e menos certezas.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado, escritor e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

