Por Alceu Batista de Almeida Júnior
O dia 8 de janeiro de 1993 marcou o fim de uma era para Araçatuba e para toda a região. Naquela data, a Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) realizou a última viagem do trem de passageiros no percurso Bauru–Corumbá, encerrando um serviço que, durante décadas, integrou cidades, aproximou famílias e fez parte da história de milhares de pessoas. A suspensão das viagens foi motivada pelas precárias condições da via férrea, que apresentava elevado risco de descarrilamentos. A decisão causou tristeza entre os passageiros e despertou um forte sentimento de nostalgia. Em reportagem publicada dois dias depois, foi registrado o depoimento de Liversina Cruz de Almeida, responsável pelo Museu Marechal Cândido Rondon, que relembrou sua viagem de lua de mel de trem, realizada em 28 de dezembro de 1947, entre Três Lagoas (MS) e Araçatuba. Sua lembrança representava o vínculo afetivo que muitos moradores mantinham com a ferrovia.
Além dos problemas de segurança, a queda no número de passageiros e o alto custo de operação tornaram o serviço economicamente inviável. Segundo José Homero, chefe do Departamento de Administração da RFFSA, o transporte de cargas continuaria normalmente, embora em alguns trechos os trens precisassem circular a apenas 30 quilômetros por hora para garantir maior segurança. A lentidão, aliada aos elevados custos, inviabilizava a continuidade do transporte de passageiros. A situação da malha ferroviária era preocupante. Somente no trecho entre Campo Grande e Três Lagoas, foram registrados 140 descarrilamentos em 1992, fator decisivo para o encerramento definitivo das viagens. Embora a RFFSA cogitasse a possibilidade de retomada do serviço caso houvesse melhorias na infraestrutura, isso jamais aconteceu.
O fim do trem de passageiros também acelerou um antigo projeto da Prefeitura de Araçatuba: a retirada dos trilhos da área central. A administração do prefeito Domingos Andorfato intensificou as negociações com a RFFSA para renovar o convênio que permitiria a remoção da ferrovia e a reurbanização da região. As tratativas, porém, transformaram-se em um impasse quando a estatal embargou a construção da Avenida Valadão Furquim, alegando a existência de uma dívida que não era reconhecida pelo município. Andorfato reagiu afirmando que a obra só seria interrompida por determinação judicial e reafirmou seu compromisso de concluir o novo sistema viário, considerado fundamental para o desenvolvimento urbano da cidade.
A despedida do trem de passageiros representou o encerramento de um dos capítulos mais marcantes da história de Araçatuba. Ao mesmo tempo, abriu caminho para profundas transformações urbanas, com a retirada gradual dos trilhos e a implantação de novas avenidas e espaços públicos. Assim, a ferrovia, que durante décadas impulsionou o crescimento do município, deu lugar a uma nova configuração urbana, permanecendo viva sobretudo na memória daqueles que viveram o tempo em que o apito do trem fazia parte do cotidiano da cidade.
Alceu Batista de Almeida Júnior é advogado, memorialista e autor do Livro: “Memórias de Araçatuba”.

