Led Zeppelin, Laerte e o Patrimônio Cultural

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ANANDA SOARES ROSA

O que Led Zeppelin, aquela banda britânica iniciada nos anos 60/70, Laerte, a cartunista e chargista brasileira considerada uma das artistas mais importantes do Brasil, e o Patrimônio Cultural tem em comum?
Inspiram-me a escrever, eu poderia dizer. No entanto, o assunto é deveras filosófico e abrangente demais para restringir a resposta da pergunta apenas à sentença anterior.
Nossa espécie evoluiu com a capacidade de lembrar. O Patrimônio – antes de o ser humano adotar esse termo propriamente dito – e as raízes da preservação, surgem na Itália, no período denominado Quattrocento, mais conhecido como Renascimento, de mãos dadas com o “nascimento” do monumento histórico. Monumento vem do latim moneo, ou seja: lembrar/recordar. Portanto, o Renascimento foi um período onde os estudiosos e artistas despertaram o interesse pelos remanescentes arquitetônicos da Antiguidade por lhes fazerem remeter a uma época grandiosa. Nesse sentido, o monumento surge atrelado à manutenção da memória.
A memória, parte intrínseca do ser humano, é a imagem viva de tempos passados ou presentes. É por meio da memória, da capacidade do homem de lembrar, que formamos a identidade de um povo. Ao permitir que o passado e o presente interajam, construímos um espaço-tempo que nos representa numa dinâmica de constante autoconhecimento e enriquecimento. Assim, como diria o ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios), “o patrimônio não se limita a um tempo, nem passado, nem futuro”.
Desse modo, quais atitudes temos tomado perante nosso patrimônio ao longo dos séculos de nossa evolução?
Mário de Andrade, um dos responsáveis pelo anteprojeto que regulamentou o antigo SPHAN, atual IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), disse que “defender nosso patrimônio histórico e artístico é alfabetização”. A própria Constituição Federal de 1988 resguarda o Patrimônio Cultural: “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”. Reparem nos termos “identidade”, “ação”, “memória”.
Pergunto: será que podemos considerar as medidas de proteção ao patrimônio suficientes para conter as demolições de nossas construções históricas e o consequente apagamento da memória e da identidade de um povo?
É nesse ponto que Laerte entra no texto: ao navegar por uma rede social onde sigo a cartunista, me deparei com uma de suas charges e pensei “Vou deixá-la salva para induzir uma discussão sobre Memória / Monumento / Identidade nas minhas aulas na faculdade na disciplina Patrimônio Histórico e Arquitetônico”, tal como fiz agora com vocês, leitores.

Extremamente necessária, Laerte apresenta no primeiro quadrinho a imagem de uma casa singela e uma fala “- …Lembra?”. No decorrer da tirinha percebemos que a casinha não passa de um quadro pregado à parede. Uma lembrança. Nos penúltimo e último esquemas da charge, o quadro com a casinha singela se mostra pregado à parede de uma edificação demolida, ou talvez em processo de ruína. No último vem a concretização da demolição e a triste resposta “- Mais ou menos.”.
Impossível não cantar Elis “Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais”.
É aí também que entra Led Zeppelin ao nosso texto. Numa intencional insinuação por parte da cartunista ao Led Zeppelin IV, álbum lançado em 1971, cuja capa do disco tinha nada além de um quadro pendurado em uma parede parcialmente demolida, com a foto de um velho carregando alguns galhos e com o pano de fundo de uma cidade inglesa industrial, onde a paisagem havia sido tomada por um arranha céu.


O que aquele arranha céu estava fazendo em meio a uma paisagem com edificações industriais inglesas? Transgressão. Que belo protesto…
Nesse momento é oportuno repetir a pergunta: O que Led Zeppelin, Laerte e o Patrimônio Cultural tem em comum?
Aqui a resposta: propósito e resistência.
Esse texto foi uma metonímia (sim, metonímia, e não metáfora!) para atentarmos ao destino de nossos bens patrimoniais. Não deixemos que nossa memória e identidade se esvaiam como as paredes que carregam quadros.

Ananda Soares Rosa, docente, Arquiteta e Urbanista e Mestra em Arquitetura e Urbanismo.

 


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