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sexta-feira, junho 24, 2022

Entre mortos e feridos

CINTHYA NUNES

Não queria mesmo escrever sobre esse assunto. Aliás, queria fingir que a guerra entre Rússia e Ucrânia nem existisse. Tentei, confesso, o quanto pude. Evitei ao máximo ler os jornais ou acompanhar os noticiários a respeito. Sempre tiver pavor de guerras. As aulas de história, cheia de estatísticas e número de mortos, deixavam-me arrasada.
Não entendo a maior parte dos argumentos que justificam uma guerra. Por mais que se queira explicar, no fim das contas tudo é uma questão de dinheiro, poder, dominação. Duvido é das motivações dos senhores da guerra, daqueles que se colocam confortáveis e protegidos atrás de supostas ideologias, pelas quais tantos jovens sucumbem, privados de uma vida que poderia ser muito maior.
Cresci com medo da Terceira Guerra Mundial, chocada pelas histórias que envolviam campos de concentração, fome e devastação. Tantas trajetórias interrompidas, tantas existências marcadas pela dor do que poderia ter sido. Não dá para mim. Não aceito, não compreendo, não perdoo.
Fico pensando na natureza que é destruída pela covardia das bombas. Pobres dos animais que morrem sem que tenham qualquer direito de defesa, de fuga, qualquer chance de não fazer parte da cretinice humana. De tanto o homem é capaz, de criações de beleza, de engenhosidade, mas de tempos em tempos, quando um cretino, um louco é gerado, prefere brincar de soldadinho, armando crianças que, de um jeito ou de outro, voltarão despedaçados.
Mal acabamos de passar por dois anos de pandemia, de perdas, de medo e incertezas e quando parece que o mundo começa a se recuperar, somos surpreendidos como uma guerra entre Rússia e Ucrânia. As cenas que nos chegam são as mais tristes e desoladoras. Pessoas fugindo de suas casas, abandonando passado, presente e futuro.
Ativistas da causa animal se recusando a deixar a Ucrânia e a abandonar cães, gatos e até mesmo animais selvagens à própria sorte, sem comida e proteção. Imagens de famílias fugindo como o pouco que são capazes de carregar, algumas carregando cães, crianças e idosos, são como navalha na minha carne.
Eu tentei ficar alheia, mas não pude. Por outro lado, só posso rezar, nada mais. E tenho feito isso, todos os dias, porque preciso sentir que faço algo além de sofrer. Não há vencedores em uma guerra. Perdem todos e nada, nem ninguém é capaz de reparar isso. Fosse a guerra lutada pelos governantes, pelos corajosos assinantes de decretos, não duraria um único dia, já que muitos covardes se ocultam sob pilhas de papéis e de palavras.
Além disso, temos os inúmeros teóricos e entendidos que começam a traçar todos os mais apocalípticos cenários para o futuro próximo, porque o medo, o pavor, vendem notícia e alimentam toda uma outra indústria. É quase como se fosse errado ter esperança ou pensar em coisas boas sem parecer ingênuo, pois é preciso estar pronto para o pior.
Eu morreria por algumas pessoas, por muitos animais, mas nunca daria minha vida para lutar batalhas alheias, questões de cunho político de gente pequena que quer figurar em livros de história. Há meios bem mais dignos e honestos de defender causas justas. Enquanto os Bufões conspiram, os soldadinhos, que não são de chumbo, explodem e fazem explodir. Triste palco de palhaços loucos.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e só espera pela Paz – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br

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