*Marcelo Teixeira
Durante mais de três décadas, a minha bússola profissional apontou para a objetividade. Formado em jornalismo, ensinado a ouvir com atenção, verificar com rigor e narrar com precisão, aprendi a contar histórias reais com a economia das palavras e a fidelidade dos fatos. O jornalista que fui — e ainda sou, em essência — foi moldado sob o aço frio da imparcialidade. Nas redações nas quais trabalhei, havia uma máxima silenciosa: os sentimentos podem até existir, mas não devem aparecer. O compromisso era com a verdade verificável, com a utilidade pública, com a entrega de informações relevantes para a vida cotidiana das pessoas.
Mas o tempo, esse escultor paciente, tratou de me oferecer outra cadeira: a da gestão pública. E nessa nova arena, percebi que a objetividade, ferramenta essencial em outros tempos, pode ser um obstáculo.
Não que a verdade tenha perdido o seu valor. Jamais. Mas a forma de dizê-la, de construí-la com os outros, exige agora outro alfabeto. No serviço público, especialmente quando se ocupa cargos de liderança, não se trabalha apenas com fatos: trabalha-se com vontades, egos, vaidades, medos e esperanças. A comunicação deixa de ser apenas um exercício de clareza e passa a ser também uma técnica de aproximação. A objetividade excessiva, nesse cenário, soa como rigidez, ou pior: como desconsideração.
É preciso mais que razão: é necessário escutar o tempo e compreender os códigos que ele exige. Na política — e a gestão pública é, inevitavelmente, um ato político — os códigos não são os mesmos da imprensa. O bom gestor, se quiser ser eficaz, precisa aprender a negociar sem vender os seus princípios. Precisa dialogar sem impor. Precisa dizer sim, mesmo quando quer dizer talvez. E, sobretudo, precisa silenciar quando a palavra direta poderia matar uma ponte em construção.
A objetividade jornalística foi meu norte, mas agora entendo que, em certos contextos, ela pode ser como uma lanterna muito forte: ofusca em vez de iluminar. Hoje, nas reuniões com lideranças, nas articulações com outros setores e na escuta ativa das demandas sociais, aprendi que o tom, a pausa e a escolha das palavras importam tanto quanto o conteúdo.
Ser gestor é lidar com a complexidade humana em estado bruto. E pessoas não são manchetes. São histórias incompletas, muitas vezes contraditórias. São afetos, interesses e contextos. Não cabem em leads nem em títulos objetivos. Precisam de sutileza.
É aqui que a objetividade começa a ser desconstruída. Não abandonada, jamais. Mas temperada com gentileza. Porque no universo das relações institucionais, ser direto demais pode parecer descortesia. Ser sincero sem cuidado pode gerar ruídos irreparáveis.
Aprendi, a duras penas, que as boas ideias nem sempre vencem por sua lógica, mas pela sua aceitação. E isso se conquista com escuta, respeito e adaptação. A verdade, por mais sólida que seja, precisa de embalagem adequada para chegar ao destino. E, em certos dias, o que se impõe não é o fato em si, mas a forma como ele é introduzido no debate.
Desconstruir a objetividade é, para mim, um exercício de humildade. Um reconhecimento de que o mundo não cabe na régua da técnica. É admitir que, mesmo depois de tantos anos de profissão, ainda há o que aprender. E que o conhecimento, como o tempo, não é uma linha reta, mas sim uma espiral.
Ao deixar a caneta jornalística na gaveta e assumir a responsabilidade pública, não reneguei os meus princípios. Apenas entendi que há momentos em que a verdade precisa ser mais paciente. No campo da política, comunicar é, sobretudo, construir convivência. E nisso, a objetividade sozinha não basta.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa da Cadeira 11



