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quinta-feira, maio 26, 2022

CRIANÇAS AUTISTAS VIVEM DIA DE ARTISTAS E LEVAM EMOÇÃO A PAIS E EDUCADORES

Logo cedo, não era o canto do galo que despertava a atenção de todos. Era o som da calopsita, numa letra que, entre seus autores, tem a jovem Vitória. “Ela faz assim, ela faz assim:…”, cantava o instrutor musical Marcelo Nellis. “Ki, ki, ki…”, completa a menina, arrancando aplausos. “Obrigada”, diz ela, com graça, ao término.
Depois dela, vem Maurício, autor de outra canção. Simples assim: “Eu gosto de música”. Mais uma vez, o professor Marcelo na interpretação, agora mais cadenciada: “Eu gosto de música, isso me deixa alegre, quando já consigo dançar…”. Enquanto isso, Maurício impressionava esbanjando outro dom para a música: o de tocador de timbal.
O espetáculo continua. É a vez de Pedro, que ajudou a compor a música “Gosto de escola”. Diz a letra, também na voz de Marcelo: “Todos brincam na escola, todos aprendem na escola… Tem esporte, tem futebol, tem informática, tem recreio…”. Na plateia, há quem não segura a emoção ao ver o garoto ensaiar acordes no violão.
Vitória, Maurício e Pedro têm uma característica em comum. São autistas e, ontem, viveram uma manhã especial na sede da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) em Araçatuba. Apresentaram a educadores, funcionários da instituição e a seus próprios pais um espetáculo musical. As letras podiam parecer tímidas, mas representavam algo de valor: além de ter como autores eles próprios, expressavam sentimentos que, segundo especialistas, talvez, não conseguissem demonstrar de outra forma. Que o diga Aline de Souza Alves, mãe de Lucas, outro menino lá assistido que estrelou para quase 200 pessoas. O garoto fez uma música para o pai sobre algo que nunca conseguiu lhe dizer: que o amava. “Falava ainda que entendia os momentos de ausência do pai, assim, coisas que nem sabíamos que ele tinha no coração”, conta ela, com os olhos lacrimejados. “E, com a música, ele conseguiu”, diz Aline, ressaltando que a criança, hoje com 10 anos, foi diagnosticada com autismo aos 8.
Outras mães que, assim como Aline, acompanharam a performance, são unânimes ao destacarem o quanto a atividade musical tem ajudado os seus filhos. Flávia Heloísa de Lima Marjoto, mãe de João Arthur: “Percebemos uma evolução muito grande, com eles identificando sons, alegria… Tudo isso traz uma paz para eles, que se expressa através da música”. E, se no começo da apresentação, Vitória arrancou aplausos incontidos com o canto da calopsita, não foi por acaso. Sua mãe, Vilma Geamariquelli, explica o porquê: “A Vitória ama música. Às vezes, uma frase inteira ela não fala, mas uma música, sim. Então, com a música, tudo melhora para ela”.

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TRABALHO GARANTE A INTERAÇÃO SOCIAL, AVALIA PSICÓLOGA

Fazer uma apresentação para grande público, como ontem, representa a superação da maior dificuldade do paciente com autismo: a interação social. A conclusão é da psicóloga Andreia Carvalho Castro Barcelos, que, na Apae de Araçatuba, coordena o programa do TEA (Transtorno do Espectro Autista), voltado ao atendimento de pacientes com diagnóstico de autismo. No total, esse trabalho, na área da saúde, atende 50 pessoas.
O programa conta com algumas atividades, sendo a música, coordenada por Marcelo Nellis, uma delas. Junto com os pacientes, ele desenvolveu as composições musicais. “Os pacientes traziam suas demandas, coisas que eles tinham interesse. Daí, eles compuseram essas músicas, Marcelo pôs ritmo e as crianças fizeram as apresentações, abordando temas variados: meio ambiente, o pai, as frutas… Em uma delas, como a da calopsita, a própria paciente canta. No geral, os pacientes participam ativamente da composição”, explica a profissional.
Até chegar ao grande momento, que foi a manhã dessa quarta-feira, destaca Andreia, um longo trabalho foi feito. “O que vimos hoje (ontem) foi a concretização de tudo o que é feito desde o começo do ano. Foi uma forma de colocar em prática tudo aquilo que nós trabalhamos, com os técnicos e com as terapias”, finaliza a psicóloga.

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APRESENTAÇÃO MARCA O ‘SETEMBRO VERDE’

A apresentação realizada ontem na Apae de Araçatuba marca as comemorações do “Setembro Verde”, como ficou definido o mês oficial da luta pela inclusão social no Estado. A abertura da campanha ocorreu no último dia 31, em uma cerimônia na Assembleia Legislativa de São Paulo que contou com a presença de representantes das Apaes do Estado, autoridades, parceiros, entidades e setores da sociedade que apoiam a causa.
A campanha teve início em 2015, sendo instituída pela Feapaes/SP (Federação das Apaes do Estado de São Paulo) em parceria com a Apae de Valinhos (SP). Neste ano, o objetivo é envolver a população em atividades voltadas à inclusão social e dar maior visibilidade à causa da pessoa com deficiência.
A fim de atingir o maior número de pessoas, a FEAPAES/SP lançou o calendário oficial com atividades que visam promover a inclusão social. Para o feriado de amanhã, a sugestão é que as Apaes e instituições participem do desfile cívico de 7 de setembro vestidas de verde e portando faixas. Já entre os dias 10 e 14, promovam o evento “Zumba na Praça” em parceria com escolas de danças locais. De 17 a 21, a dica é fazer visitas a escolas e universidades. Por fim, entre 14 e 28 de setembro, devem promover o “Piquenique da Inclusão”.

ARNON GOMES
Araçatuba

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