*Marcelo Teixeira
Convivo com esposa, filhos, pais, irmãos, colegas de trabalho, amigos. Por vezes, no modo automático, por vezes, num exercício de atenção e solicitude… ou deveria. Entendo a convivência como um território fértil de aprendizados e também de desgastes. Compartilhar a vida com o outro, seja no lar, no trabalho ou nas amizades, é uma arte que exige mais do que tolerância: exige atenção, escuta e uma certa dose de renúncia ao próprio ego. Ao longo do tempo, a civilização não avançou apenas com tratados, invenções e guerras, mas com o esforço silencioso de conviver. É no convívio que se formam laços, mas também quando surgem as fraturas.
A rotina, esse elemento aparentemente neutro, pode ser o veneno e o antídoto das relações. Por um lado, ela organiza, oferece segurança, cria rituais que sustentam a vida em comum. Por outro, quando automatiza gestos e silencia a atenção, pode corroer lentamente os vínculos. O bom-dia que vira murmúrio, o olhar que já não encontra o outro no café da manhã, a irritação que se acumula como poeira nos cantos da alma são sinais de que a convivência está adoecendo sob o peso da repetição não questionada.
Como nos lembra o filósofo francês Montaigne, “conviver é o mais difícil dos exercícios”. Porque exige o reconhecimento de que o outro não será jamais extensão de nós mesmos. Somos frágeis, limitados, opinativos. E quando essas fragilidades se encontram, não raro colidem. Daí surgem os atritos, os mal-entendidos, os silêncios longos demais. A convivência traz benefícios apenas para quem está disposto a aprender com as diferenças e a aceitar a imperfeição do outro e, sobretudo, a própria.
Há quem transforme pequenas rusgas cotidianas em trincheiras. Um comentário atravessado, um atraso recorrente, uma preferência não compreendida. Quando não se olha com atenção, a convivência escorrega para o julgamento e, mais adiante, para a inimizade. Tornamo-nos caricaturas uns dos outros: o reclamão, a insensível, o autoritário, a desorganizada. E assim se perde a complexidade de cada ser humano substituída por rótulos fáceis, e muitas vezes injustos.
Mas, se há perdas na convivência, há também ganhos incalculáveis. Poucas experiências são tão reveladoras quanto a de compartilhar o dia com alguém. Nos pequenos gestos – dividir o pão, ouvir uma angústia, tolerar uma mania – mora uma forma de transcendência. É no convívio que se aprende a humildade, o perdão e, por vezes, até o amor. A convivência é um espelho que reflete não apenas o outro, mas a imagem que temos (ou escondemos) de nós mesmos.
O antídoto contra os prejuízos da convivência não é o afastamento, mas sim a atenção. É preciso olhar de novo para quem se habituou a estar ao nosso lado. É preciso surpreender e permitir-se ser surpreendido. Trocar a obrigação pelo gesto voluntário. Escutar sem pressa. Pedir desculpas sem orgulho. Celebrar o ordinário com olhos extraordinários.
Como num velho jardim (ou mesmo no lugar comum que compara a convivência com uma planta que necessita ser regada), as relações pedem cuidado constante. Conviver é, em última instância, um exercício de fé no outro e em si mesmo. Um ato contínuo de renovação. E, como todo exercício, só melhora com a prática e com a delicadeza.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

