OTIMISMO - Economista Marco Aurélio Barbosa analisa que empresas souberam se adaptar ao "novo normal' trazido pela pandemia

‘Chegada da vacina é essencial para uma retomada sustentada da economia’, diz economista

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ARNON GOMES

Num ano em que tudo girou em torno dos impactos causados pela pandemia, duas medidas do governo federal de “socorro” à economia foram consideradas fundamentais para a manutenção do consumo e dos empregos: o auxílio emergencial à população (primeiro, no valor de R$ 600; depois, R$ 300) e a suspensão dos contratos de trabalho nas empresas.

No entanto, ambos os benefícios terminaram no final deste mês. Então, o que esperar para o primeiro trimestre do ano que está chegando? Quais as vantagens que os dois programas trouxeram e foram fundamentais para que as empresas continuassem suas atividades?

Todas estas perguntas são respondidas nesta entrevista pelo economista e professor universitário Marco Aurélio Barbosa, especializado em economia regional.

Apesar de um cenário de incertezas, para ele, uma “coisa” é certa: “A chegada da vacina é essencial para uma retomada mais sustentada da economia nacional”.

Leia abaixo a entrevista:

 

Qual a avaliação dos resultados do Auxílio Emergencial e do programa de suspensão de contrato de trabalho?

Minha avaliação é positiva. Foram medidas de política econômica extremamente importantes para o enfrentamento da crise econômica provocada pela pandemia. Na ausência desses programas, o impacto social e econômico no país seria devastador. Dados recentes evidenciam que o auxílio emergencial contribuiu, inclusive, para a redução da extrema pobreza no ano e o programa de suspensão e redução do contrato de trabalho preservou aproximadamente 10 milhões de postos de trabalho. Portanto, o Governo Federal através do Ministério da Economia, foi muito assertivo na implementação desses dois programas. Além disso, as medidas contribuíram para o arrefecimento da crise, encurtando o ciclo recessivo. Dessa forma, a economia brasileira conseguiu retornar seu crescimento no terceiro trimestre do ano, caracterizando uma recuperação em V, ou seja, uma retomada rápida após uma declínio profundo. Esse é justamente o papel do governo que dispõe dos instrumentos necessários para a condução de políticas macroeconômicas anticíclicas.

 

Para a região, quais foram as principais vantagens em termos de consumo e geração de empregos?

Os dois programas contribuíram muito para a economia regional. Ao manter o fluxo de renda para as famílias locais, o auxílio emergencial injetou renda nos municípios mantendo aquecido vários setores produtivos. Alguns, inclusive, tiveram crescimento superior ao registrado em anos anteriores, como o caso dos supermercados, farmácias, depósitos de material de construção, elétricas e hidráulicas, entre outros. Estimo que as famílias da região de Araçatuba tenham recebido pouco mais de R$ 400 milhões desde a criação do programa. E essa renda ao circular pela economia trouxe efeitos encadeadores e multiplicadores positivos favorecendo o consumo e a manutenção de empregos. Destaca-se ainda que houve significativa adesão das empresas regionais ao programa de suspensão e redução de jornada de trabalho. Dessa forma, muitos empregos foram preservados e, ao mesmo tempo, essas pessoas puderam manter resguardadas suas rendas e o consumo, favorecendo a economia regional.

 

O que esperar dos primeiros meses do ano sem esse socorro na economia?

Os dados econômicos do país, em especial, do PIB, indicam que a economia está aos poucos adentrando em um processo de recuperação. Todavia, há muitas expectativas em relação à retirada desses importantes estímulos e o impacto no processo de retomada do crescimento econômico, cuja projeção do Focus – Relatório de Mercado do Banco Central – é de crescimento 3,49% do PIB em 2021. Acredito que o primeiro trimestre do ano será crítico para uma avaliação mais precisa do impacto do fim dessas medidas na economia nacional. Do ponto de vista do emprego, problema mais crítico a ser enfrentado pelo país no próximo ano, tendo em vista o contingente de mais de 14 milhões de brasileiros desempregados, os dados do CAGED demonstram a obtenção de saldos positivos desde o mês de junho. Entretanto, a crise deixou profundas sequelas para o sistema econômico e sua estrutura produtiva. Uma delas é a aceleração da inflação e o encarecimentos de várias matérias-primas, insumos e componentes necessários a processo produtivo industrial como aço e seus derivados, alumínio, plásticos, cobre, entre outros. O encarecimento desses produtos desencadeia inflação de custos e tudo é repassado aos consumidores que estão em uma situação complicada vendo sua renda se deteriorar.

 

Há alguma relação de melhora na economia com sucesso no combate à pandemia, com a vacina?

Com a chegada da vacina em vários países e a expectativa de uma solução definitiva para a pandemia, o mercado ficou esperançoso e as expectativas melhoraram. A Bolsa de Valores está batendo recordes, o dólar recuou e vários indicadores que procuram estimar as expectativas dos setores produtivos demostram resultados positivos. A vacina é essencial para trazer certa normalidade para o ambiente econômico, para que o sistema econômico e suas engrenagens possam girar adequadamente. Essa situação de “abre” e depois “fecha”, como tem ocorrido recentemente, gera impacto negativo na economia e fragiliza ainda mais as empresas, em especial, de setores que foram muito castigados pela crise como gastronomia, turismo e setores do relacionados ao segmento de serviços. Imagina o dono do restaurante que se prepara para voltar a trabalhar, contrata pessoas, deixa tudo organizado, compra matéria prima para produzir seus produtos e de repente tem que fechar a empresa? Portanto, a chegada da vacina é essencial para uma retomada mais sustentada da economia nacional.

 

Com o socorro do governo à economia ao longo deste ano, é possível dizer que as empresas estão preparadas para caminhar sozinhas agora?

É difícil dizer, pois a crise atual não tem paralelo na história. Nunca enfrentando algo dessa natureza e envergadura. A ruptura que ela provocou e as transformações foram profundas. As crises anteriores eram em sua grande maioria da própria economia provadas pela inflação, déficits externos, crises internacionais, ataques especulativos contra nossa moeda, ou seja, eram do campo da economia e, portanto, havia remédios testados pela teoria econômica em outros momentos históricos e até mesmo em outros países prescrevendo o tratamento para combater o problema. A crise atual não tem parâmetros. Há setores, cuja evolução tecnológica que se daria ao longo dos próximos anos, acelerou o processo e fez em poucos meses. O problema é que muitas dessas mudanças tecnológicas são poupadoras de mão de obra. Acredito que muitas empresas fizeram a lição de casa e se prepararam para os desafios do próximo ano, revisaram processos, incorporaram tecnologias, reduziram custos, aceleraram sua digitalização e adentraram no e-commerce para dar alguns exemplos. Por outro lado, muitas não se prepararam, e correm o risco de fecharam sua portas, perante o cenário adverso que enfrentaremos em 2021.

 

 


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