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terça-feira, agosto 16, 2022

Caldos, meias e toucas

CINTHYA NUNES

Odeio frio. Em verdade nem sei se é ódio. Apenas sinto que o frio é, em muitos sentidos, incompatível com a vida. Com a minha vida, por certo. Exageros à parte, admito que até há glamour em locais turísticos, onde o frio significa, para os que lá estão a passeio, um menu de comidas reconfortantes, boas bebidas, roupas elegantes e passeios temáticos. Disso também gosto, é claro.
O frio raiz, aquele que vem me dizer olá assim que o alarme do celular toca, dando notícias de que tenho que me aprontar para mais um dia de trabalho, já não me seduz e nem me convence das suas boas intenções. Ainda mais um frio meio fora de época como este que a maior parte do Brasil tem vivenciado neste mês de maio. Ao leitor do futuro, àquele que porventura encontre esse texto perdido em algum canto do multiverso ou esquecido na forração de uma gaveta, esclareço que estamos no ano de 2022.
Tempos estranhos esses. Nem sei e nem quero imaginar como será o fim do mundo, mas o meio dele tá f@xx! Segundo li, esse frio extremo, com temperaturas mínimas de menos de dois dígitos, atípico, é mais um dos tantos reflexos do aquecimento global, dos muitos estragos que a intervenção humana causa no globo terrestre.
O fato é que os boletos continuam chegando e não dá para ficar no sofá, enrolada nas cobertas, lendo os policiais dos quais tanto gosto ou assistindo filmes. Por sorte continuo com várias atividades online, o que me poupa de enfrentar a friaca das ruas, mas assim como grande parte das casas no Brasil, não temos um sistema de aquecimento central e dentro de casa o frio ainda se faz presente.
Nessas horas é que me pergunto onde está a tal elegância que o frio proporciona? Acordo em um estado deplorável, após vencer a luta contra as cobertas que tentam me convencer a ficar um pouco mais, tão quentinhas e macias. Fico alguns minutos pensando em como ser rápida o suficiente para quase me teletransportar do pijama para outra roupa que ainda não se encontra aquecida por mim. Em alguns momentos, nessa transição, sinto minha alma se desprender do corpo, na tentativa de se proteger do choque térmico.
Para conseguir ficar minimamente confortável, visto-me com quase tudo que posso, na quantidade de roupas que, sobrepostas, não interrompam minha circulação sanguínea, usando e abusando de meias grossas e até de toucas. Sobre essas últimas juro que tentei ao máximo, mas nas duas últimas aulas dessa semana brindei os alunos com a imagem de uma professora friorenta e suas toucas feitas à mão. Foi o jeito que dei de não morrer de dor de cabeça, daquelas que sinto quando fica frio demais (coisas de quem vai envelhecendo ou que tem cabeça e orelha grande. Ou ambos).
Genteeeen e a fome que dá no frio? Eu pelo menos sou capaz de comer o dobro e nada de saladinhas e coisinhas leves. Quero arroz com feijão, ovo, sopa, pão, bolo, chocolate e
sopas variadas. Só comidinhas reconfortantes, daquelas que preenchem os espaços vazios e, infelizmente, ampliam os já ocupados. Dizem que no frio consumimos mais calorias, mas sei que a conta não fecha assim e vida que segue.
Nem chegamos no inverno, mas eu espero que o frio dê as costas logo. Ao menos esse frio que parece não se contentar com qualquer roupa, que deixa o nariz de quem tem renite pingando o dia todo, que me faz ficar encolhida, com os dedos duros enquanto digito destilando dele todo meu ódio.
Acima de tudo, desejo que ele se vá porque tantas pessoas sequer podem se dar aos meus pequenos luxos, sofrendo pelas ruas ou em locais totalmente inapropriados. O frio vitima pessoas e animais abandonados e essa tragédia existencial é o verdadeiro inverno que não podemos superar com brincadeiras.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e nesse momento está com três meias – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br

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