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Araçatuba
domingo, agosto 7, 2022

Barba, cabelo e bigode

CINTHYA NUNES

 

-Pode deixar comigo. Já assisti a três vídeos no YouTube e chegou o kit de tesouras que eu encomendei. Mas pensando bem, e se ficar horrível?
-Daí eu raspo careca, ué?!
Com a garantia de que haveria uma solução em caso de fracasso, durante a pandemia me tornei cabelereira amadora. Para alívio de todos, não criei nenhum sósia do Kojak ou, para que os mais jovens entendam, do Meu Malvado Favorito.
Nada contra os carecas, registro antes que protestos sejam enviados à Redação. Apenas que, no caso em concreto, significaria que meu investimento no kit de três tesouras, sete pentes e uma navalha teria sido um desperdício. Quando resolvi que, em meio à pandemia, iria cortar um cabelo masculino, tratei de adquirir o material minimamente necessário.
Depois de alguns tutoriais, de posse de minhas ferramentas, coloquei mãos à obra. Segui à risca os ensinamentos gratuitamente fornecidos e o resultado final foi bem melhor do que eu imaginava. Não havia nascido ali, no entanto, a cabelereira em mim, pois minha carreira se iniciara havia muitos anos.
Não me recordo mais como, na adolescência, em tempos pré-internet, comei a cortar os cabelos da minha avó paterna. Em algum momento, talvez pela idade avançada, Dona Sebastiana parou de ir até o local onde cortava os cabelos. Assumi o papel de aparar o cabelo branquinho e fininho, bem como de cortar e pintar as unhas dela. Fiz isso por muitos anos, até próximo de sua morte.
Naquela mesma época, cortava também as pontas dos cabelos de algumas amigas, desde que fossem lisos e eu achasse alguma tesoura, nas coisas de casa, que não estivesse cega. Eram tempos mais brutos. Muita coragem das minhas cobaias ou vítimas. Fato inconteste é que nunca fiz estragos aparentes nos cabelos alheios, desde que não se compute uma franja um pouco curta demais que fiz em minha irmã, ela com três e eu com cinco anos.
Já na faculdade, desembaraçava com prazer os longos, grossos e ondulados cabelos de minha colega de apartamento. Sempre achei relaxante desembaraçar cabelos alheios. Até hoje gosto disso e, vez ou outra, quando posso estar com elas, encurralo uma de minhas sobrinhas, com seus cabelos compridos e ali me demoro o tempo que for preciso.
Aos dezesseis anos, voluntária em uma creche, cometi o erro de inverter as posições e deixei menininhas de seis a oito anos pentearem os meus cabelos. Quando compreendi que os pontinhos brancos nos cabelos delas eram ovos de piolhos, já era tarde demais. Compartilhamos a mesma escova por algumas horas e a mesma coceira por vários dias.
A pandemia, assim, somente trouxe de volta algo que me acompanhava há tempos. Agora, todos os meses, minhas tesouras quase profissionais se movimentam e cumprem seus desígnios. Há passos que ainda não arrisquei, como usar a navalha, para segurança geral da nação, mas já aprendi, pela observação, a contornar redemoinhos ou a cortar ali sem deixar ninguém com o topete do Pica-pau.
Não arrisco cortar meu próprio cabelo, no entanto. Sempre achei minha cabeça um pouco grande para o meu corpo, de modo que careca não está entre minhas melhores chances de um bom visual, mas venho arriscando mudar a cor dele, por conta própria. Enquanto minhas opções estiverem entre as cores mais sóbrias, passarei incógnita pela multidão.

 

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e pretende, uma hora dessas, fazer um curso de cabelereira – cinthyanvs@gmail.com/www.escriturices.com.br

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