RUBENS BIZARRO ROMARIZ
“Nossa vida é composta de sal e açúcar. A maioria prefere usar primeiro o açúcar, e no fim da vida, terá que resistir o dissabor do sal.” (Cícero Buark)
Vai a gente ao longo dos tempos, colecionando fotos. Depois, uma a uma, vamos colocando-as nos álbuns da vida. Cada ano que se despede para nunca mais voltar, deixa sempre a última foto. As fotos serão sempre os espelhos que refletem o passado, às vezes de saudades, outras de tristezas. Que importa, foi o que vivemos.
Na verdade, o homem vive duas vidas ao mesmo tempo, simultâneas, mas nem sempre paralelas, às vezes divergentes, uma é a exterior, de relação e de contato com os semelhantes, que todos vemos e conhecemos. Na verdade, conhecemos em termos, em partes, aos pedaços ou apenas em fragmentos. São, portanto, todas as fotos de suas ações e atitudes que uma vez reveladas, são públicas e libertas. Evidentemente, a outra por oposição à primeira, é a interior ou íntima. É, portanto oculta, aquela que o sujeito vive dentro de si mesmo. Possui sentimentos e pensamentos mudos. São, na verdade, as fotos da memória que cada indivíduo guarda entesouradas e são segredos que a ninguém revela. Nesse ponto, a vida íntima faz do homem um eterno solitário, sonhador que adormece em devaneios entre o real e o imaginário. São as fotos que desvendam as aversões e afeições, conceitos e superstições, aspirações e esperanças, desenganos e desejos, de cadáveres e fantasmas, de resignações e remorsos, de renúncias e anseios, de sacrifícios e de alegrias, de silêncio e de solidão, de vergonhas e exaltações, de saudades e de tristezas.
Assim, a vida comum só se torna possível se soubermos trancar a porta da vida oculta. A vida oculta será sempre misteriosa, ela será sempre particular de cada EU, principalmente com aqueles com quem partilhamos e dividimos a vida exterior.
Há, entretanto, ocasiões que um abalo violento, ou como alguns revelam a perversa ironia do destino, rasga-se o véu até então impenetrável e desvendam-se os segredos. Na verdade será apenas um relance, um piscar de uma visão de uma foto guardada, que sempre será pávido de surpresa que nunca imaginávamos existir.
Vida vai sendo gravada nas fotos, e uma a uma todas vão para o álbum. Assim, há fotos que desvendam luz, outras são apenas visões de planícies desertas, enquanto muitas deixam transparecer a sensação de uma imagem de recordação abraçada na alma das saudades.
A vida em fotos nunca será solitária, ela está envolvida numa grande teia. Se o governo faz da foto de um povo uma injustiça de oportunidades, se as leis são burladas, se a pobreza e a dor da fome ou da ignorância vicejarem em benefício à riqueza de poucos, é então possível entendermos que há fotos sem rosto.
A vida doméstica, particular de cada um, a sociedade em que vivemos, é hoje uma série contínua de descontentamento, de pequeninas irritações a atuar negativamente, fazendo com que muitas fotos não sejam reveladas.
…e na política quando as fotos secretas são descobertas, então o político denunciado cai em investigação, suas fotos reveladas jamais serão apagadas. Entretanto fico com a verdade que Jesus disse: “Atire a primeira pedra quem não tenha pecado”.
Um bom sábado e domingo aos leitores do nosso “O Liberal”. Porém, é sempre melhor colecionar fotos cândidas de nossa vida.
RUBENS ROMARIZ É PROFESSOR, CRO-NISTA E ESCRITOR
rb.romariz@gmail.com

