Da Redação – Araçatuba
O que era para ser apenas um projeto retirado da pauta acabou se tornando uma discussão de mais de 50 minutos na sessão da Câmara Municipal. Após a presidente da Casa Legislativa, Edna Flor (Podemos), pedir a retirada de projeto assinado por ela e pelo vereador Ícaro Morales (MDB) que previa aumento de 153% nos subsídios mensais dos vereadores – passando de R$ 6.518,96 para R$ 16.500,00 – para a próxima legislatura (2029-2032), um “pela ordem” (forma regimental de pedir a palavra na sessão) da vereadora Sol do Autismo (PL) fez com que a discussão tomasse grandes proporções.
Vários vereadores se manifestaram, sendo que o principal embate ocorreu entre o vereador Ícaro Morales (MDB) e o vereador Arlindo Araújo (SD). Ao defender o projeto apresentado para aumento de salários, Ícaro chegou a acusar vereadores de legislaturas anteriores de praticarem a chamada “rachadinha” (divisão de salário com assessores e com cargos conquistados), o que provocou a ira de Arlindo, que é o parlamentar mais longevo da casa e participa de todas as legislaturas desde 1993.
Na fala de Ícaro, o vereador reclamou de ter sido colocado como autor da matéria junto com a presidente Edna Flor e defendeu o aumento, dizendo não ser justo que assessores ganhem mais do que os parlamentares. Logo depois, ele afirmou que não há reajuste desde 2006 nos subsídios mensais dos parlamentares porque vereadores de legislaturas anteriores não precisavam se preocupar com isso por conta de supostas “rachadinhas”.
“Reajuste de um salário que não é ajustado desde de… há 20 anos! Sabe porquê, imprensa marrom, nós não temos vereadores que votam reajuste do próprio salário. Porque antigas legislaturas estavam acostumadas com rachadinha! Estavam acostumadas com prefeitos que compravam os vereadores com cargos e aí é lógico, é fácil eu ganhar R$ 5 mil aqui se por fora eu ganho R$ 30 (mil). É fácil”, disse o vereador.
Em outro trecho, o vereador acusa legislaturas passadas de corrupção e pela omissão de não votar o reajuste dos subsídios.
“A gente aumenta salário de todo mundo aqui, nós lutamos por mais dignidade para todas as categorias, agora, quando nós vamos votar no nosso, ‘olha o vereador’. Primeiro que isso é horrível, nós votarmos no nosso próprio reajuste. Concordo que deveria sim, passou da hora, de ter um ajuste natural, de todo ano ajustar 5% por ano. Que é o que os antigos vereadores de Araçatuba deveriam ter feito há 20 anos, mas é imoral né, votar cinco por centinho de aumento, e agora sobrou para esta casa ter que fazer justiça pelos 20 anos de corrupção que nós vivemos aqui e ter que moralizar”, afirmou.
Reação
O vereador Arlindo Araújo (SD) reagiu à fala de Ícaro e defendeu seu trabalho e o de colegas de legislaturas anteriores.
Arlindo afirmou ser a favor de o subsídio do vereador ser de R$ 3 mil por acreditar que o trabalho de parlamentares deveria ser uma forma de se doar à população.
“Fala de forma genérica que nas legislaturas passadas todos eram corruptos e faziam rachadinhas é irresponsável, é leviano. Porque eu nunca fiz e conheci colegas que não fizeram, aliás, nunca ninguém provou que faziam isso. Então isso é muito sério”, disse.
Na sequência, o parlamentar afirmou o projeto deveria estar em pauta apenas no último ano da legislatura e disse que apresentar o aumento de subsídio no primeiro ano seria “enganar o povo”.
“Esse não é o momento ideal para se apresentar esse projeto, ele tem que ser apresentado no último ano da legislatura. Por que ele foi apresentado o ano passado, que era o primeiro ano da legislatura? A população pode entender que isso era uma maneira, um subterfúgio para votar esse aumento absurdo e o povo esquecer até na próxima eleição. Podem interpretar assim e não é errado interpretar assim”, disse o vereador, que seguiu em outro trecho. “Há pouco tempo atrás teve as eleições e não me lembro de nenhum que está aqui nessa casa fazendo campanha dizendo ‘olha, quando eu for eleito eu vou querer aumentar meu salário já no primeiro ano’, alguém aqui falou isso? Lógico que não, se falasse não estavam eleito. Então apresentar um aumento de salário já no primeiro ano é enganar o povo”, disse.
Réplica
Ao voltar a ter a palavra na discussão, Ícaro Morales (MDB) pediu desculpas, mas afirmou que no caso de Arlindo, que não tem dedicação total à Câmara por atuar como médico veterinário, o salário de R$ 3 mil seria muito.
“Eu queria pedir desculpa ao vereador Arlindo Araújo se de alguma forma o senhor se sentiu englobado, o senhor tem uma vida pública que eu admiro, nunca na vida achei que o senhor participasse de algum tipo de rachadinha e te peço desculpas públicas quanto a isso. Mas eu quero dizer, que da mesma forma como o senhor se baseia no direito de considerar justo o senhor receber R$ 3 mil, eu considero uma prática política muito diferente da sua para com exemplo da Presidente da Casa, que qualquer momento do dia que nós procurarmos a Edna ela estará aqui. O senhor, com todo respeito, o senhor tem um outro trabalho, o senhor não fica aqui, o senhor não tem a dedicação plena e exclusiva com ao Edna tem nessa casa. Então realmente, para quem não vem aqui, não frequenta a Câmara, R$ 3 mil eu acho muito até”, disparou.
Subiu o tom
Arlindo Araújo subiu o tom da discussão logo depois, questionando os meios de vida do vereador e suas ausências em votações e na função de 1º secretário da Mesa Diretora.
“O senhor não é irresponsável, o senhor é realmente uma pessoa inconsequente. Eu tenho profissão mesmo, eu sou médico veterinário, todo mundo sabe disso. A sua profissão é que eu não sei qual é, do que que o senhor vive. Não sei. O senhor é advogado? Diz o número da sua OAB para a gente tornar público as atividades que o senhor faz. Do que o senhor vive? O senhor ganha dinheiro com o que? Eu ganho dinheiro com a minha profissão”, afirmou.
Arlindo seguiu dizendo que Ícaro não tem cumprido com suas funções na Mesa Diretora.
“Eu gostaria de pedir ao senhor Ícaro, que quando se reportar a minha pessoa que o faça com responsabilidade. Dizer que eu venho a essa casa é irresponsável. Eu venho, o que eu não faço é ficar me aparecendo. Eu venho e cumpro com as minhas obrigações e não falto às sessões. O senhor foi eleito secretário e por vezes o senhor não em cumprir com a sua obrigação. O senhor se candidatou a secretário, foi eleito, tem que ser secretário. Cumpra com a sua obrigação, leia os documentos. Mas o senhor é useiro e vezeiro em não ficar aí, e a Edna tem que chamar o Carlinhos para ficar aí. O senhor não cumpre com a sua obrigação”, disse.
Em outro trecho da fala, Arlindo acusa Ícaro de “se esconder” em votações de temas mais sensíveis.
“O senhor foi irresponsável, inconsequente, indelicado ao citar o meu nome e tentar dizer que eu não venho a essa casa. Aliás, eu nunca saí do plenário para não votar coisas e ficar escondido lá fora”, disse.
Ofensas
Por não haver mais tempo regimental, Ícaro afirmou que responderia o vereador em suas redes sócias, e nisso Arlindo disparou.
“O senhor pode fazer a resposta nos quintos dos infernos, seu aparecidão, bobão, pode escrever, falar o que você quiser nas redes sociais, seu tonto. Senhora presidente, eu não tenho paciência, até agora ele não falou a OAB dele, não falou a profissão dele, para mim ele é um vagabundo que não faz nada. O senhor é um vagabundo que não tem profissão, vive às dispensas de uma atividade aí que diz que ajuda os doentes”, disse.
Ícaro rebateu Arlindo fora do microfone, mas em áudio aberto rebateu a acusação.
“Vagabundo é você, o senhor me respeite”, afirmou.
Após a discussão, alguns vereadores mais próximos foram acalmar Arlindo Araújo, como Carlinhos do Terceiro (Republicanos), Sol do Autismo (PL) e F ernando Fabris (PL), e a discussão do tema seguiu com outras opiniões.
Projeto retirado
Antes do entrevero, a presidente Edna Flor (Podemos) propôs a retirada da proposta de aumento dos salários da pauta e todos os vereadores foram favoráveis por não terem se manifestado contrários à proposta. Com a retirada, o projeto foi arquivado.

