*Marcelo Teixeira
Ricardo Cruz me contou que ouviu de Henry Mascarós que toda decisão é errada. Fique intrigado com a sentença filosófica. E lá fui eu ler e refletir sobre o assunto, afinal de contas tenho comigo que a busca pela verdade e pela certeza é um dos dilemas fundamentais da condição humana. Na complexidade da vida cotidiana, somos constantemente confrontados com escolhas que moldam os nossos destinos e influenciam o mundo ao nosso redor. No entanto, a afirmação de que “toda decisão é errada” levanta questões um tanto quanto profundas sobre a natureza da verdade, do conhecimento e da capacidade humana de compreensão.
Para compreender essa afirmação é necessário primeiramente explorar a ideia de que a verdade absoluta pode ser inatingível para a mente humana. E é. Filósofos debatem há seculos sobre a possibilidade de alcançar o conhecimento absoluto e indubitável. O ceticismo exemplificado por pensadores como Sexto Empírico na antiguidade e David Hume na era moderna, questiona a validade das nossas percepções e inferências, sugerindo que estamos limitados pela subjetividade e pelas falhas dos nossos sentidos.
Neste contexto, a afirmação de Henry pode ser interpretada como uma expressão desse ceticismo. Se aceitarmos que as nossas percepções e raciocínios são intrinsecamente limitados e sujeitos a erros, então todas as decisões que tomamos estarão manchadas pela incerteza e pela possibilidade de estarem erradas. Mesmo as escolhas que parecem mais fundamentadas em evidências sólidas estão sujeitas à revisão e à crítica, à medida que novas informações surgem e novas perspectivas são consideradas.
Além disso, a complexidade do mundo em que vivemos adiciona outra camada de incerteza às nossas decisões. As interações entre os sistemas sociais, políticos, econômicos e ambientais criam um ambiente fluido e imprevisível, em que as consequências das nossas ações muitas vezes ultrapassam as nossas capacidades de previsão. O chamado “efeito borboleta” – a ideia de que pequenas mudanças em um sistema podem ter grandes efeitos em outro – destaca a dificuldade de prever com precisão as ramificações das nossas escolhas.
No entanto, é importante reconhecer que a afirmação de que “toda decisão é errada” não implica necessariamente uma paralisia total diante das escolhas. Em vez disso, ela nos convida a adotar uma postura de humildade intelectual e prudência ética diante das incertezas da vida. Reconhecer a falibilidade das nossas decisões não significa abandonar a responsabilidade de agir, mas sim cultivar uma consciência crítica e aberta às complexidades do mundo. Creio que o raciocínio de Henry seja neste sentido, embora eu não tenha conversado com ele sobre o tema.
Uma abordagem pragmática para lidar com a incerteza é adotar uma mentalidade de aprendizado contínuo. Em vez de buscar certezas absolutas, podemos nos esforçar para melhorar a nossa compreensão do mundo, estar abertos ao diálogo e à troca de ideias, assim como dispostos a revisar as nossas crenças e decisões à luz de novas informações e experiências.
Aqui destaco que a ética desempenha papel fundamental na orientação das nossas escolhas neste incerto mundo. Mesmo que não possamos ter certeza absoluta sobre as consequências das nossas ações, podemos nos guiar por princípios morais e valores que promovam o bem-estar humano, a justiça e a sustentabilidade. Ao agir com integridade e empatia, podemos mitigar os riscos associados à nossa inevitável falibilidade.
Embora possamos nunca alcançar a verdade absoluta, podemos buscar uma compreensão mais profunda e compassiva do mundo e das nossas próprias limitações. Ao fazê-lo, podemos encontrar significado e propósito na jornada de explorar as fronteiras do conhecimento e da ação humana. Preciso urgentemente tomar um café com Henry e Ricardo e falar sobre isso. Esta simples decisão creio – e apenas creio – que seja acertada.

