Da Redação – Araçatuba
*Marcelo Teixeira
Há um silêncio novo em casa. Não é a ausência física, mas o da expectativa. Sofia, a minha filha primogênita foi cursar faculdade em outra cidade. Entre livros, roupas e sonhos, ela organizou o futuro. Eu, pai, tento organizar os meus sentimentos.
Educar um filho é prepará-lo para o mundo. Repetimos essa frase com a segurança de quem acredita estar pronto para o momento da partida. Não estamos. Atrevo-me a dizer que nunca estaremos. Criamos os filhos para que voem, mas quando eles ensaiam e realizam a ação, descobrimos o peso invisível das asas.
Lembro-me do primeiro dia de aula daquela que chamo de filhota, da mochila quase maior que o corpo. Agora, a mochila é outra, os medos são outros, e a mão já não cabe dentro da minha. O tempo, esse artesão silencioso, transformou a menina curiosa em uma jovem determinada.
Sair de casa para estudar é mais do que buscar um diploma. É aprender a administrar horários, frustrações, contas e escolhas. É descobrir que a liberdade tem custos e que crescer é, muitas vezes, enfrentar a solidão de decisões que não podem ser terceirizadas. O meu coração de pai oscila entre o orgulho e a angústia. Orgulho por vê-la pronta. Angústia por saber que não estarei ao lado a cada dificuldade.
Mas amar também é confiar. Confio na educação que recebeu, nos valores que cultivamos, na ética que debatemos e exemplificamos. Confio na capacidade dela de errar e aprender, de cair e se levantar. Nenhuma trajetória é linear. As grandes histórias são feitas de curvas, desvios e reencontros.
Desejo que Sofia se realize profissionalmente, que encontre na profissão não apenas sustento, mas sentido. Que trabalhe com dignidade e paixão. Que construa uma carreira que respeite os seus talentos e limites. Porém, desejo ainda mais que ela se realize como pessoa: que faça amigos leais, que viva amores sinceros, que descubra quem é pelas suas próprias opções.
A cidade nova será professora severa e generosa. Haverá dias de euforia e dias de saudade. Haverá noites longas de estudo e momentos de dúvida. Em cada etapa, espero que ela se lembre de onde veio, não como prisão, mas como raiz. Raízes não impedem o crescimento; sustentam-no.
Para nós, pais, resta a tarefa mais difícil: permanecer disponíveis, presentes, atentos, mesmo à distância. Aprender a apoiar sem invadir, orientar sem controlar, aconselhar sem impor. A maturidade dela exigirá também a nossa.
Sei que a casa parecerá maior e os corredores mais longos. Sei que sentirei falta do som da porta se abrindo, das conversas inesperadas, das risadas e também dos embates. Mas também sei que a felicidade dos filhos é a forma mais pura de recompensa para os pais.
Filha, vá! O mundo é grande, e você é capaz. Construa a sua história com coragem e sensibilidade. Busque excelência sem perder a ternura. E, quando o caminho parecer pesado demais, lembre-se: você nunca estará sozinha. Sempre poderá contar com o meu, o nosso apoio e suporte, da sua família que te ama.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

