Este sábado (02) marcou os 60 anos da fabricação da primeira Kombi no Brasil, um dos veículos mais clássicos do automobilismo mundial e que recebeu no país um apego diferente. A produção iniciou em setembro de 1957, quando o veículo era conhecido como “furgão Volkswagen”, mas a Kombi já era importada desde o começo dos anos 1950. No restante do mundo ela parou de ser fabricada no final dos anos 1970, mas os brasileiros foram muito além: usaram, compraram, venderam e colocaram na história 1,5 milhão de Kombis, enquanto no mundo todo foram produzidas 10 milhões de unidades.
O carro é uma verdadeira paixão nacional e virou peça de colecionador. Por conta do espaço que ele tem no mercado nacional, que parou de fabricá-lo apenas em 2013, o Brasil se tornou um dos maiores exportadores de Kombis “clássicas” que chegam a custar algumas centenas de milhares. O veículo só deixou de ser fabricado por conta da legislação de segurança, uma vez que os carros começaram a vir com airbags e ABS nos freios.
ALMA
A “velha charmosa” paira entre o brega e o cult, atraindo os mais variados perfis de admiradores. Mas fato é que quando ela passa, todo mundo olha. “Muita gente criticou quando a gente comprou, mas todo mundo agora quer entrar, dar uma voltinha, tirar foto”, conta Anita Marques Laranjeira, empresária de 29 anos que é dona de Kombi. Ela e o marido Bruno de Sousa Lima Fernandes, 34 anos e também empresário, participam do clube Antigos S/A. que reúne apaixonados por veículos antigos para organizar exposições e promover uma relação diferenciada com os carros.
“O pessoal fala que a Kombi e o Fusca têm alma, então quando você acha a sua alma gêmea não tem jeito”, diz Bruno. O casal destaca que, além do charme, cada carro antigo tem a sua peculiaridade. “Os novos parecem todos iguais, de plástico, você não consegue distinguir qual é qual. O antigo tem história e todo mundo se lembra de um carro antigo que o avô, pai ou tio tinha”, concordam.
Eles batizaram o veículo de Carla Perez, homenagem à famosa dançarina dos anos 1990. “É por que é antiga, mas é popular ainda hoje”, conta Bruno. “E também por que foi muito desejada”, completa Anita. O casal considera o veículo como parte da família e, para a proprietária, foi amor à primeira vista. “Eu vi pela primeira vez no bairro Nossa Senhora Aparecida e quis imediatamente. Depois encontrei em um site, só que dizia que estava em Nhandeara. Depois essa Kombi apareceu em Taveira e foi uma confusão”, explica Anita, que percebeu que se tratava do mesmo veículo em anúncios diferentes quando a achou, definitivamente, no bairro Hilda Mandarino.
Anita diz que quando foram ver o veículo o marido tentou faze-la desistir. “Ela estava arrebentada, cheia de fios puxados, tinha acabado de ser utilizada nas eleições, um bagaço. Mas eu queria essa, não queria nem reformada. Ela nem ligou quando a gente foi buscar e tivemos que tirar da garagem empurrando. Não tinha combustível, não tinha bateria, não funcionava. O Bruno queria ir embora, mas eu bati o pé”, lembra. O casal tem o veículo há cerca de um ano.
VERGONHA
Bruno diz que o filho deles, que tem 9 anos, tinha vergonha da Kombi, mas que hoje o carro se tornou o xodó do menino. “Hoje a molecada gosta, se diverte, a gente usa pra levar ele na escola, pra buscar, a gente vai pra rancho, pesca. Os amigos dele podem comer salgadinho dentro dela que não tem problema. Nós viajamos para encontros e levamos a bicicleta do nosso filho junto”, conta. Anita diz que a graça do carro antigo é fazer amigos de verdade. “Nosso filho percebeu que ao invés do pessoal rir dele eles queriam passear com ele”.
Os amigos e familiares tentaram fazer o casal desistir da compra, mas ela acabou acontecendo como um presente de aniversário para Anita, que sempre foi apaixonada por kombis. Na infância ela brincava dentro da de um tio e isso ficou em sua memória. “Falavam que a gente ia ficar na rua e que não iam buscar a gente, que só ia gastar dinheiro. Só que agora as pessoas perguntam se a gente não quer vende”, diz Bruno.
A Kombi se tornou um carro do dia a dia da família, que optou por não restaurá-la para que pudessem fazer o trabalho necessário a seu modo. O casal explica que a restauração leva muito dinheiro e deixa o carro impecável, “mas não é o nosso estilo. Ela é meio Frankenstein e todo mundo gosta dela assim”, diz Bruno. “Ela estava feia, o motor tinha pegado fogo, estava parada há um tempão e do nosso jeito começamos a melhorar ela, de acordo com o gosto da Anita”, diz Bruno.
PREÇO
Bruno destaca que o carro antigo é mais barato que uma bicicleta elétrica, hoje em dia. “Às vezes encontramos carros antigos bem conservados por R$ 2 mil e a paixão está em você cuidar dele, aprender a trocar algumas peças”, explica. “O Fusca e a Kombi eram carros feitos para o povo, para durar, e era para qualquer um poder consertar, também, por isso são veículos simples. Nesses carros, a lataria acaba antes do motor, por que o motor é muito resistente. A lataria acaba, mas o carro ainda anda”, enfatiza. “O preço que eu gasto para comprar e manter uma Kombi não paga nunca um carro novo. E ela nos dá retorno emocional diferente de um carro convencional. Todo mundo fala que não compraria, mas todo mundo gosta de ver de perto, de tocar”, conta.

