PONTO DE VISTA

Vida à venda

            *José Renato Nalini

Esse o título de um livro publicado pela Estação Liberdade, escrito pelo japonês Yukio Mishima (1925-1970).

Narra a odisseia de um publicitário que anuncia num jornal a venda de sua vida, como se ela fora mera mercadoria. Faz lembrar o drama de pessoas carentes que em certas partes do mundo anunciam a venda de rins, pulmões, fígados e outros órgãos, que poderiam ser adquiridos por ricos à espera de um transplante.

Mas a vida à venda também recorda tantas existências colocadas em leilão, para propiciar a seus titulares uma sobrevida em condições de subsistência. Ainda que indigna. Seres que se prestam a comércio sexual, ou que oferecem sua força, capacidade de trabalho ou talento, para servir a quem lhes pague. Com uma prática renúncia à sua individualidade, ao desenvolvimento de projetos pessoais.

Vidas à venda são também as dos jovens que não encontram emprego, nem ocupação rentável, e que se rendem às facções criminosas, na sua eficiente organização. Dão o que o Estado não dá, o que a sociedade lícita não consegue entregar à sua mocidade dourada. É o futuro da Nação que se estraga e se perde.

Valem pouco, ainda, as vidas esfaceladas pelas verdadeiras chacinas, as queimas de arquivo, os confrontos entre gangues, aquelas ceifadas num trânsito caótico, irresponsável e perverso.

Vida é algo tão precioso, que sequer pode ser tecnicamente chamada de direito. Os direitos, sim, é que são “bens da vida”.

Vale a pena a leitura dessa obra instigante do escritor que era um paradoxo, quando em vida. Autor de literatura pós-moderna, era extremamente conservador em política. Formou e custeou uma milícia, invadiu um quartel e praticou suicídio há exatamente meio século.

Não se subestime a capacidade de chocar que as extremas possuem. Vale uma reflexão para repensar o rumo que estamos conferindo ao nosso amanhã, a continuar o clima de polarização e de intolerância hoje vigente.

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022.

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