Diego Fernandes – Araçatuba
A auxiliar de cozinha Maria Theresa de Souza Ferreira Silva, moradora do bairro Vista Verde, em Araçatuba, fez um boletim de ocorrência na última terça-feira (11), na Polícia Civil, em Araçatuba, informando a morte do seu marido, o vidraceiro Ismar Machado de Oliveira, de 46 anos, que morreu no pronto-socorro de Araçatuba na tarde da última segunda-feira (10). Ela acusa o órgão de saúde municipal de negligência no atendimento.
A reportagem do jornal O LIBERAL entrou em contato com Maria Theresa nesta quarta (12), e ela conta que no dia 30 de maio, feriado de Corpus Christi, Ismar passou mal pela primeira vez, com sintomas de gripe, porém, neste dia não procurou atendimento médico.
Ainda com sintomas e com dificuldades de respiração, Ismar foi ao pronto-socorro no dia 3 de junho, uma segunda-feira, quando passou pelo médico e realizou exames de sangue e de raio-x. Foi constatado no PS que ele estava com baixa saturação e fraqueza, por conta disso, ele ficou na unidade entre 13h e 21h recebendo medicação e oxigênio para regularizar sua saturação.
Indicação para internação
Após isso, Maria Theresa informa que foi passada medicação para ele tomar em casa. Já no dia 8 de junho, um sábado, Ismar começou a passar mal e precisou ir novamente para o pronto-socorro, quando a médica de plantão afirmou que o caso dele era para internação.
“Eu levei ele e fiz questão de ficar junto com ele, entrei com ele na sala da médica, passei com ele. A médica falou que o pulmão estava carregado após ver no sistema o exame dele. Ela disse que era caso de internação. Ela mandou ele novamente para tomar medicação”, afirmou sua esposa.
Mandado para casa
Após ser levado para tomar medicação, houve troca de plantão no pronto-socorro, e o médico que o atendeu logo depois, conversou com ele e ouviu do próprio Ismar que ele estava com uma dor insuportável entre o pescoço e a cabeça, além de muita falta de ar. Mesmo assim, após a indicação de mais medicações, ele foi liberado.
No dia seguinte, domingo, dia 9, Ismar voltou ao PS para ser medicado novamente, mais uma vez sentindo falta de ar e com muitas dores, e novamente foi liberado pelo médico para voltar para casa.

Piora no quadro
No dia 10, segunda-feira, Maria Theresa estava trabalhando quando recebeu uma ligação de Ismar. Segundo ela, o marido mal conseguiu falar ao telefone.
“Ele me ligou quando eu estava no trabalho e eu só ouvi a respiração dele. Corri para casa, coloquei ele no Uber e levei pelo PS”, disse.
Ao chegar ao pronto-socorro para atendimento pela quarta vez em apenas uma semana, Ismar, mesmo com fortes dores e muita falta de ar, recebeu uma fita verde para o atendimento, sendo enquadrado entre os atendimentos de pouca urgência.
“Deram para ele a fitinha verde, que demora mais, e estava lotado o pronto-socorro”, disse a esposa.
Mau atendimento e porta na cara
Neste momento, por causa das dores, Ismar já não conseguia manter uma postura reta sentado na cadeira, e quando a enfermeira mediu sua saturação, disse para ela que estava baixa por causa da sua postura na cadeira. Neste momento, Maria Theresa disse que começou a discutir com a enfermeira. A profissional de saúde se irritou e bateu a porta da sala de atendimento na cara da esposa de Ismar.
Theresa, então, ficou desesperada e começou a gritar na recepção, quando o médico, que o havia atendido no sábado e no domingo, passou por ela, perguntou se ela já tinha feito a ficha, e saiu. Após mais um tempo, o casal foi atendido por outra enfermeira. Ao explicar a situação de seu marido, a fita verde foi trocada pela amarela, para agilizar o atendimento.
Morte
Ao ser atendido, Ismar foi levado novamente para a sala da médica, que o havia atendido inicialmente no sábado, que ficou surpresa ao vê-los novamente.
“Ué, ele não internou?”, indagou a médica, segundo relato da esposa de Ismar.
Neste momento, a médica iniciou contato com a Santa Casa de Araçatuba para a internação de Ismar, mas durante a ligação, o seu estado de saúde piorou e ele teve uma parada cardiorrespiratória.
“Aí ele foi para a emergência, apitou um alarme muito alto, todos os médicos vieram e começaram a fazer massagem nele, fecharam a porta, não vi mais nada. Depois o médico me falou que ele teve uma parada respiratória e estavam tentando reanimar. Depois chegou o SAMU. Ficaram uma hora dentro da emergência e não conseguiram estabilizar ele”, contou a esposa emocionada.
Ismar faleceu às 17h40 de segunda-feira (10) no pronto-socorro de Araçatuba. No dia seguinte, após a cerimônia de velório e sepultamento, Maria Theresa, com o atestado de óbito em mãos, foi à Polícia Civil para registrar o boletim de ocorrência.
Segundo ela, seu marido morreu por negligência da equipe do pronto-socorro. Ele deixou quatro filhos.
“Espero que agora com essa eleição entre alguém que cuide da saúde aqui, porque está um caos”, desabafou a esposa.
Histórico
A morte de Ismar é mais uma dentre tantas ocorridas no pronto-socorro de Araçatuba nos últimos dois anos. Há cerca de um mês, o jornal O LIBERAL e o site LR1 divulgaram reportagem informando que 136 morreram somente entre julho de 2022 até fevereiro deste ano no pronto-socorro de Araçatuba.
O período de início dos dados corresponde ao início do trabalho do Instituto Multi Gestão, que administra o PS.
Segundo a própria prefeitura e a administradora, foram 37 mortes no PS em 2022 em julho e dezembro, outras 92 ao longo de 2023, e sete entre janeiro e fevereiro deste ano.
Outro lado
A reportagem questionou a prefeitura de Araçatuba e a secretaria de saúde sobre o caso da morte de Ismar, mas até o fechamento desta reportagem ainda não tem havia obtido resposta. Caso haja resposta, ela será incluída aqui.


