Diego Fernandes – Araçatuba
Além de ser um gesto de amor e compaixão para com o próximo, a doação de órgãos tem o poder de criar histórias incríveis. Apenas o fato de saber que uma parte da pessoa falecida segue viva dentro de outra pessoa mexe com o coração dos familiares do ente querido que se foi.
Neste sábado, dia 27 de setembro, é comemorado o Dia Nacional da Doação de Órgãos. Por conta disso, nesta sexta-feira (26), familiares de Laís Machado Celoni, menina de apenas 3 anos de idade, que faleceu no mês de junho, fizeram uma soltura simbólica de bexigas verdes, em alusão ao Setembro Verde, campanha que incentiva a doação de órgãos. O ato foi realizado no cemitério onde Laís foi sepultada.

Laís faleceu em junho após sofrer uma hemorragia cerebral. Segundo a mãe, no primeiro momento a suspeita era de que ela teria sofrido o problema após uma queda, porém, o médico afirmou, após tomografias, que não havia trauma no crânio, mas sim, que Laís havia nascido com má formação congênita. A morte foi constatada na Santa Casa de Araçatuba.
Assim que teve a morte encefálica confirmada, os médicos propuseram aos pais a doação de órgãos de Laís, e ambos concordaram. Ela teve o coração e os rins captados pela Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante. O coração foi para o Unicor, em São Paulo (SP), enquanto os rins foram para o Hospital de Base de São José do Rio Preto.
Após este episódio, a mãe de Laís, a terapeuta Aline Adriane Machado Celoni, de 43 anos, passou a ser ativista da causa e a incentivar a doação de órgãos, até como uma forma de confortar seu coração pela perda da filha.

“Depois que passou a fazer parte da minha vida, eu pude compreender a grandeza que é a doação de órgãos. Você se abrir para algo novo acontecer na vida de outra pessoa. Então eu decidi trabalhar em uma campanha de conscientização da importância da doação de órgãos, especialmente a doação de órgãos infantil”, afirmou a terapeuta em um vídeo gravado nas redes sociais.
Já em depoimento à reportagem do jornal O LIBERAL, Aline afirmou que não conhecia nada sobre a doação de órgãos, mas acabou decidindo junto com o marido, João Paulo de Oliveira Celoni, a fazer a doação com o objetivo de salvar outras vidas.
“Meu marido e eu não conhecíamos nada a respeito deste assunto. Os médicos nos chamaram para conversar e assim que falaram da morte encefálica já nos apresentaram a possibilidade da doação de órgãos. Conversamos um pouquinho e decidimos que doaríamos os órgãos dela. Meu esposo e eu chegamos à conclusão de que como não tinha mais nada o que fazer e os órgãos dela poderiam salvar alguma criança, a gente achou necessário fazer a doação”, afirmou.
Beneficiadas

A doação do coração e dos rins de Laís beneficiou três crianças, dentre elas, a menina Vitória, de apenas 4 anos, moradora de São Paulo (SP), que recebeu o coração. Aline disse que pesquisou sobre as listas de espera por órgãos e conseguiu descobrir quem era a garotinha que recebeu o órgão de sua filha. Ela já esperava há 11 meses por um transplante.
“Eu comecei a olhar com mais profundidade a lista e a fila de transplante, e descobri a garotinha que recebeu o coração da Laís. É uma criança de 4 anos que nasceu com uma cardiopatia grave e ela já estava há 11 meses no hospital e ela estava respirando com a ajuda de oxigênio porque ela estava muito fraquinha”, afirmou Aline.
Simbólico
Como alusão ao Setembro Verde e à campanha de doação de órgãos, Aline, a filha mais velha Luana, de 7 anos, e algumas outras pessoas participaram de um ato simbólico nesta sexta (26), véspera do Dia Nacional da Doação de Órgãos, e véspera também do aniversário de Laís, que completaria 4 anos neste sábado.
Todos que compareceram levaram bexigas e balões verdes e fizeram a soltura próximo ao túmulo de Laís como um ato de simbolismo ao incentivo na doação de órgãos.
“Minha filha e algumas amigas estiveram no cemitério, fomos até lá com bexigas verdes representando o Setembro Verde, e soltamos essas bexigas. Para a minha filha é como se ela estivesse mais perto da irmã dela”, completou.
Como ser doador de órgãos
Para ser doador de órgãos no Brasil, o passo mais importante é comunicar sua família sobre o seu desejo de doação após a morte, pois a autorização final é dada por eles. O Brasil também permite a doação de órgãos em vida para parentes de até quarto grau, e o interessado pode formalizar sua intenção de doação eletronicamente através do site da AEDO (Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos – aedo.org.br, ou pelo aplicativo e-Notariado.
Não é necessário deixar nada formalmente escrito em cartório, pois a lei brasileira exige o consentimento da família para a retirada de órgãos após a morte. Porém, atualmente, para a confecção da Carteira de Identidade Nacional, é perguntado à pessoa se ela aceita ser doadora e a informação é colocada ali, embora, ainda assim, seja necessário o consentimento familiar.
Pode-se doar órgãos duplos (como rim), uma parte de um órgão (como fígado ou pulmão) ou tecidos (como a medula óssea). O doador passa por uma avaliação médica detalhada e testes de compatibilidade para garantir que a doação não afetará gravemente sua qualidade de vida.


