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    Home»Cidades»Araçatuba»O peso invisível das palavras
    Araçatuba

    O peso invisível das palavras

    By dfernandesmr16 de março de 2026Nenhum comentário3 Mins Read
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    *Marcelo Teixeira

    Há momentos em que a vida nos lembra que as palavras não são apenas sons organizados em frases. Elas podem ser remédio ou veneno, abrigo ou tempestade. Recentemente, dois amigos meus atravessam territórios difíceis. Um recebeu o diagnóstico de câncer. O outro ainda aguarda o resultado de exames que dirão se a doença também o atingiu. Entre consultas, exames e silêncios prolongados, surgiu algo que me fez refletir profundamente: o poder das palavras que lhes são dirigidas.

    Quando alguém enfrenta uma ameaça concreta à saúde, o mundo parece subitamente dividido entre dois tipos de interlocutores. De um lado estão aqueles que oferecem palavras de encorajamento. Dizem “força”, “estamos com você”, “vai dar certo”. Não se trata de ingenuidade ou de negação da realidade, mas de uma postura humana elementar: reconhecer que a esperança é parte importante do tratamento.

    Do outro lado, contudo, aparecem os profetas da causalidade moral da doença. Com certo ar de sabedoria alternativa, insinuam que enfermidades como o câncer poderiam ser fruto de pensamentos negativos, de má energia ou de uma postura mental inadequada diante da vida. A frase nunca vem diretamente como acusação. Surge envolta em delicadeza aparente: “Você precisa cuidar da mente”, “talvez seja um alerta do universo”, “pense positivo para não piorar”.

    É aqui que a palavra deixa de ser apoio e passa a ser peso.

    A ciência médica moderna já demonstrou amplamente que o câncer possui causas complexas, envolvendo fatores genéticos, ambientais e comportamentais. Desconheço evidência científica de que pensamentos negativos produzam tumores. A ideia de que a doença nasce da mente pode parecer motivadora à primeira vista, mas contém uma perversidade silenciosa: transforma o doente em culpado.

    Se a doença evolui, a culpa seria dele por não ter pensado corretamente. Se o tratamento falha, seria porque faltou otimismo suficiente. Nesse raciocínio tortuoso, a pessoa não enfrenta apenas uma enfermidade, mas também um tribunal moral invisível.

    Prefiro, sem hesitar, a primeira atitude: a do incentivo.

    Palavras de apoio não curam sozinhas. Mas também não ferem. Elas criam um ambiente emocional mais respirável, algo essencial para quem já enfrenta medos, dores e incertezas. O estímulo sincero não substitui a medicina, mas ajuda a sustentar a coragem necessária para seguir adiante.

    A palavra humana é uma ferramenta poderosa. Pode iluminar ou obscurecer, aliviar ou agravar. Quando falamos com alguém que atravessa uma doença – seja física ou psicológica – não estamos apenas conversando. Estamos, de alguma forma, participando da batalha daquela pessoa.

    Talvez por isso seja prudente lembrar: quem fala sempre carrega alguma responsabilidade. Nem sempre podemos curar o sofrimento alheio, mas podemos, ao menos, evitar ampliá-lo.

    E, em tempos difíceis, isso já é muito.

    *Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

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