Marcelo Teixeira
Na praia, quando fui pegar água de coco no carrinho do Geno e da Luzia, o cliente antes de mim estava comentando alguma notícia de política. “(…) mas sabe como é jornalista, né! Manipula tudo em busca de audiência. Não dá pra confiar.” Não tomei pra mim o comentário, não me dando o trabalho de debater, ainda mais na minha folga de fim de ano, ainda mais no litoral, ainda mais com um desconhecido, ainda mais…
Além disso, nessas ocasiões, lembro-me de uma frase do carioca Marques Rebelo: “Ninguém convence alguém de algo. Quem se deixa convencer já estava convencido”. Penso nisso antes de entrar “em uma dividida”.
Mas, como dá pra perceber, o assunto chamou a minha atenção e me fez refletir. De qual jornalista aquele cidadão estaria falando? Daquele que trabalha no mercado privado, em site, emissora de rádio ou TV contrária às preferências ideológicas dele? Na imprensa oficial de um governo no qual ele não votou? De todos? Improvável, mas pode ser. Sinal de discussão enviesada e de imaturidade de quem toma a parte pelo todo.
Na sociedade contemporânea, é comum atribuir características fixas e uniformes a certas profissões ou grupos de profissionais. No entanto, essa prática é incorreta e prejudicial para a compreensão coletiva e para as reputações individuais. Ao rotular um grupo inteiro com base em estereótipos, corremos o risco de diminuir a diversidade de talentos, habilidades e experiências que existem dentro de uma mesma categoria profissional.
A generalização ao avaliar profissões desconsidera a complexidade e a individualidade de cada indivíduo que a compõe. Todo grupo profissional possui uma ampla gama de personalidades, éticas de trabalho, habilidades e ambições, além dos alinhamentos corporativos. Portanto, é injusto e impreciso assumir que todos os integrantes de uma profissão se encaixam em um molde predefinido.
Além disso, ao estigmatizar uma profissão com base em generalizações, criamos barreiras para o entendimento mútuo e o respeito entre diferentes campos. Isso tende levar a preconceitos e discriminação, impedindo a colaboração e o crescimento coletivo. Por exemplo, ao rotular todos os políticos como corruptos, policiais como violentos, profissionais de TI como nerds etc., desconsideramos aqueles comprometidos com a ética e a melhoria social.
Já propus esse exercício de reflexão no artigo “Não estamos todos na mesma vala”, de 29/08/2023, e repito: é preciso considerar cada indivíduo como único, reconhecendo as suas habilidades e limitações sem generalizações baseadas em categorias profissionais. A valorização da singularidade de cada pessoa promove um ambiente mais inclusivo e justo, em que o mérito é reconhecido e as diferenças são celebradas.
Guardadas as devidas proporções, em “O Cortiço” de Aluísio Azevedo, Rita Baiana estigmatiza outras personagens com base na sua origem e classe social. Ela, uma mulher negra e ex-escrava, ascende socialmente dentro da casa coletiva, mas reproduz estigmas sociais, desdenhando daqueles que considera inferiores a ela, especialmente os ex-escravos ou pessoas de origem mais humilde que a dela. Rita se distancia de sua própria origem para tentar alcançar um status social mais elevado, evidenciando essa dinâmica de estigmatização com base na posição social na obra.
Voltando à vida real, é importante que abandonemos o pecado da generalização e passemos a valorizar a individualidade e a diversidade de cada profissional. E também passemos a entender as nuances das categorias, afim de termos a real noção do que cabe a cada uma, tanto do ponto de vista técnico quanto social. Somente assim poderemos construir uma sociedade mais justa e inclusiva, em que todos tenham a oportunidade de serem reconhecidos pelo que são, e não pelo que os outros pensam que eles são.
*Marcelo Teixeira é jornalista, escritor e membro da Academia Araçatubense de Letras



