*Marcelo Teixeira
O meu amigo Iran, pai do pequeno Vicente, atiçou a minha curiosidade ao dizer que se tornou um “pai gamer”. Interessado que sou em novas (ao menos para mim) palavras, termos, conceitos etc., e pai que também sou, aqui estou refletindo minimamente sobre a questão.
O ser humano adora rótulos. O pai herói, incansável e sacrificial. O pai provedor, definido pelo salário. O pai protetor, vigilante do mundo externo. A psicologia clássica, por sua vez, tentou organizar esses arquétipos em funções: autoridade, referência moral, limite. Todos eles ainda existem. Mas, no meio do controle parental, dos consoles e dos fones de ouvido da contemporaneidade, surge um novo personagem — menos épico, mais cotidiano: o pai gamer.
À primeira vista, ele pode parecer uma caricatura: um adulto jogando videogame com o filho. Para alguns, quase uma inversão de papéis. Mas esse julgamento rápido ignora o essencial. O pai gamer não é o pai que “deixa jogar”; é o pai que escolhe jogar junto. Ele seleciona títulos adequados à idade, entende as dinâmicas online, sabe com quem o filho conversa, o que aprende, o que repete e o que normaliza dentro daquele universo digital.
A diferença central entre esse novo estereótipo e os modelos tradicionais está na mediação ativa. O pai herói costuma aparecer no momento do perigo. O pai protetor ergue muros. O pai gamer senta ao lado. Em vez de apenas impor regras abstratas sobre tempo de tela ou violência simbólica, ele transforma o jogo em linguagem comum. Aprende para orientar. Observa para intervir. Compartilha para educar.
Há também um deslocamento importante de autoridade. No jogo, o pai nem sempre sabe mais. Às vezes, perde. Às vezes, aprende com o filho. E é justamente aí que reside a sua força pedagógica. Ele ensina que errar faz parte, que frustração se administra, que competição não exclui cooperação. Em chats online, pode discutir respeito, discurso de ódio, limites. Em missões virtuais, conversa sobre estratégia, ética, escolhas e consequências.
O pai gamer entende que o mundo dos filhos não começa “lá fora”, mas também na tela. Ignorá-lo é terceirizar a formação. Demonizá-lo é perder a chance de diálogo. Participar é assumir responsabilidade.
Não se trata de glorificar o videogame nem de romantizar a paternidade digital. Trata-se de reconhecer que educar, hoje, exige presença onde o filho está — inclusive no território virtual. O pai gamer não substitui os antigos arquétipos. Ele os atualiza. Menos armadura, mais controle na mão. Menos discurso, mais convivência. E, sobretudo, mais escuta em tempo real.
Particularmente, nunca joguei videogame nem jogos online com os meus filhos. Agora, repenso. Obrigado, Iran e Vicente, pelo ensinamento!
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11



