*Marcelo Teixeira
Em uma das suas memoráveis palestras, Marcos Piangers conta uma boa história na qual uma das suas filhas, ainda criança, disse que queria se casar para ter em quem mandar. Engraçado e absolutamente normal, pois há no ser humano um incontrolável desejo de dominar alguém, algo ou situação – no singular e no plural. Tenho a impressão que se trata de uma característica intrínseca presente em diversas formas de relacionamento social. A busca pelo controle e pela autoridade muitas vezes se manifesta em dinâmicas de dominação, revelando aspectos profundos da psicologia humana.
No contexto familiar, a relação de poder entre pais e filhos é uma das mais antigas e universais. Aqueles detêm autoridade sobre esses, tanto para proteger quanto para guiar. No entanto, essa autoridade pode se transformar em dominação excessiva, prejudicando o desenvolvimento da autonomia das crianças. De maneira similar, a dinâmica entre cônjuges pode envolver uma luta pelo controle, em que um parceiro busca impor a sua vontade sobre o outro, resultando em desequilíbrios de poder e, frequentemente, em conflitos. Quem é casado entende bem o que estou dizendo.
Passando à esfera da formação acadêmica, professores exercem poder sobre alunos, direcionando a aprendizagem e o comportamento em sala de aula. Embora essa autoridade seja necessária – em certas medida – para manter a ordem e promover a “evolução”, ela também pode se tornar opressiva quando os educadores adotam posturas autoritárias. Alunos submetidos a esse tipo de ambiente podem desenvolver aversão ao aprendizado e problemas de autoestima.
No ambiente de trabalho, a relação entre chefes e subordinados exemplifica claramente a necessidade de domínio. Chefes detêm poder sobre os funcionários, controlando tarefas, horários e condições de trabalho. A forma como essa autoridade é exercida pode variar significativamente. Em alguns casos, líderes inspiram e motivam as suas equipes de maneira natural e eficaz. Em outros, chefes assumem uma postura tirânica, exercendo controle rígido e minando a moral dos subordinados.
Nessa conjuntura, devo citar a Síndrome do Pequeno Poder, um fenômeno comum em ambientes hierárquicos, em que indivíduos que possuem um espaço limitado de poder adotam comportamentos autoritários ou opressivos. Scott Shapiro, na sua teoria da Economia da Confiança, sugere que a confiança é um recurso crucial em qualquer estrutura de poder. Quando agentes em posições de autoridade menor abusam de seu poder, eles corroem a confiança dos subordinados e desestabilizam a estrutura organizacional.
Esse comportamento pode ser observado em diversos cenários, como em burocracias governamentais, nas quais funcionários de baixo escalão exercem controle desproporcional sobre cidadãos ou em empresas em que supervisores de nível intermediário adotam posturas draconianas. A necessidade de afirmar sua autoridade leva esses indivíduos a exagerar o seu poder, criando um ambiente de trabalho tóxico e desmotivador.
A distinção entre chefia e liderança natural é fundamental para entender as dinâmicas de poder nas relações humanas. Chefia implica um poder conferido por uma posição hierárquica, muitas vezes exercido de forma coercitiva. Já a liderança natural emerge de maneira orgânica, baseada em habilidades interpessoais, empatia e respeito mútuo.
Líderes naturais não precisam impor a sua autoridade; eles inspiram confiança e admiração por meio do seu comportamento e ações. Em contrapartida, chefes que dependem apenas do título para exercer poder tendem a criar resistência e descontentamento. A liderança natural é salutar, pois atende à necessidade humana de orientação e comando de maneira positiva e construtiva.
A necessidade humana de mandar e dominar é um reflexo de nosso complexo psicológico e social. As relações de dominação permeiam as nossas interações diárias, desde a família até o local de trabalho.
Reconhecer e compreender essas dinâmicas é importante para promover ambientes mais equilibrados e saudáveis. Promover lideranças naturais e conscientes é o caminho para um futuro em que o poder seja exercido de forma justa e equilibrada, atendendo às necessidades humanas de maneira construtiva e benéfica para todos.
*Marcelo Teixeira é jornalista, escritor e membro da Academia Araçatubense de Letras onde ocupa a Cadeira de número 11



