*Marcelo Teixeira
Das novas palavras que venho aprendendo nas leituras rotineiras, uma das mais recentes é autoperdão. Venho refletindo sobre o tema. E chego à conclusão que vivemos em uma era de vigilância total, mas o olhar mais severo não é o da câmera na rua ou o do algoritmo das redes sociais, mas sim o olhar que lançamos sobre o espelho. Observo que a humanidade sempre buscou rituais de “expiação”. Do sacrifício antigo à confissão religiosa, o homem tentou, por milênios, transferir o peso das suas faltas para instâncias externas. Hoje, no entanto, em um mundo pretensamente secularizado e profundamente narcísico, o tribunal tornou-se interno. Nos tornamos, a um só tempo, o réu, o promotor e o carrasco de nós mesmos.
O autoperdão, nesse contexto, não é um exercício de autoajuda barata ou uma licença para a irresponsabilidade. Pelo contrário: perdoar-se é um ato de profunda coragem intelectual e ética. Aquele que se recusa o perdão não é necessariamente mais “justo” ou “moral”; muitas vezes, é apenas alguém preso em uma soberba invertida. Acreditar que o seu erro é imperdoável é, no fundo, acreditar que você é especial demais para falhar, que deveria estar acima da condição humana — que é, por definição, limitada e claudicante.
O verdadeiro autoperdão exige “coragem da responsabilidade”. Não se trata de varrer a sujeira para debaixo do tapete da consciência, mas de encarar o erro com a sobriedade de um legista. É preciso reconhecer a falha, sentir o amargor do remorso e, quando houver possibilidade, operar a reparação. Sem reparação, o perdão é apenas um verniz sobre o egoismo.
Contudo, após o acerto de contas com o outro, resta o acerto de contas com o próprio ser. Manter-se em estado de autoflagelação eterna é uma forma de paralisia. O remorso é útil como bússola, mas é tóxico como moradia. Quem não se perdoa nega a própria natureza temporal: somos seres em processo, e o “eu” que errou ontem já não é exatamente o “eu” que reflete hoje.
A autocompaixão, tão necessária e tão rara, é a compreensão de que somos todos projetos inacabados. Ao nos perdoarmos, não estamos dizendo que o erro foi correto, mas sim que o erro não nos define por inteiro. É o reconhecimento de que a vida é curta demais para sermos nossos próprios carcereiros. Se a ética começa no reconhecimento do outro, ela se sustenta na capacidade de olhar para si mesmo com a mesma lucidez e misericórdia que o conhecimento histórico nos ensina a ter com o passado: entendendo os contextos, lamentando as perdas, mas aceitando que o único caminho possível é o adiante.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

