*Marcelo Teixeira
Há pessoas que atravessam a vida acreditando que boa intenção basta. Estão enganadas. A história humana é um museu de tragédias produzidas por gente convencida de que estava fazendo o certo. Como diz o ditado: de boas intenções o inferno está cheio. E talvez o “boi do rio Piracicaba” pudesse testemunhar isso, caso tivesse sobrevivido.
Um colega de profissão contou-me uma cena que parece parábola escrita pela própria realidade. Durante um rafting no rio Piracicaba, cheio pelas chuvas, ele e um amigo canoeiro notaram um boi preso em meio a uma galhada. Apenas a cabeça do animal permanecia fora d’água. Era uma luta silenciosa pela sobrevivência. O boi estava imobilizado, mas conseguia respirar.
Meu colega passou pelo animal. O outro esportista, movido pela compaixão, decidiu parar. Tentou libertar o boi daquelas galhadas que pareciam aprisioná-lo. Empenhou força, boa vontade e altruísmo. Conseguiu desvencilhar o animal. Segundos depois, o boi afundou e morreu.
Quando reencontrou o amigo mais adiante, ouviu a frase dura, quase brutal: “Você matou o boi.”
A sentença causa desconforto porque desmonta uma ilusão que apreciamos cultivar: a de que querer ajudar é suficiente. Não é. Há situações em que a intervenção precipitada destrói exatamente aquilo que pretendia salvar. O boi permanecia vivo porque a galhada, paradoxalmente, também o sustentava. Ao remover o obstáculo sem compreender todo o contexto, retirou-se junto o precário equilíbrio que mantinha o animal respirando.
A vida pública, a política, a gestão e até relações pessoais estão repletas desses “salvadores de bois”. Pessoas generosas, bem-intencionadas, emocionadas, mas incapazes de enxergar as consequências futuras dos próprios atos. Agem sobre o efeito imediato, ignorando os desdobramentos invisíveis. Combatem sintomas sem compreender causas. E, frequentemente, pioram o problema.
É exatamente aí que surge o chamado Efeito Cobra, expressão inspirada num capítulo da história de Delhi, na Índia, durante a colonização inglesa, entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX. Incomodado com a infestação de cobras venenosas, o governo britânico decidiu pagar recompensas para quem entregasse serpentes mortas. A ideia parecia brilhante. E, inicialmente, funcionou.
Mas os indianos perceberam rapidamente a oportunidade econômica. Começaram a criar cobras em casa para abatê-las depois e receber dinheiro do governo. Quando os ingleses descobriram a distorção e encerraram o programa, os criadores simplesmente soltaram as serpentes nas ruas. O problema, que já era grave, tornou-se ainda maior.
A história do boi no Piracicaba e o Efeito Cobra ensinam a mesma lição: boas intenções sem critério podem ser perigosas. Resolver problemas requer visão sistêmica, estudo, planejamento, acompanhamento e gestão contínua. Exige compreender que toda ação produz consequências, inclusive as invisíveis no primeiro momento.
Porque ajudar, sem entender profundamente aquilo que se tenta salvar, pode significar apenas isto: afogar o boi.
*Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

