*Marcelo Teixeira
Admito, sou refém do calendário, da agenda, do relógio. E faltam horas no meu dia para executar todas as tarefas as quais me proponho. Fico com a impressão – impressão, não, sensação mesmo – que o tempo está passando mais rapidamente. Embora existam estudos científicos de que isso pode, de fato, estar ocorrendo, trata-se de uma fração tão diminuta que não temos condições de perceber. Das poucas certeza que tenho comigo, uma delas é que não cabe a Cronos essa responsabilidade.
Com o passar do incontrolável tempo, os compromissos recheiam, lotam, transbordam a agenda. Mas nem sempre é assim. Quando criança, as referências temporais são outras, como as refeições, o horário de dormir e de brincar; na idade escolar, o ínício e término das aulas e das férias; adulto, começo e conclusão diária do expediente de trabalho, prospecções, reuniões, orçamentos planejamentos, relatórios, balanços. E tudo encaixado com infindáveis datas comemorativas. O que notamos é fruto da mistura da nossa própria pressa, preocupações, ansiedade e excessos.
Dos fatores que podem contribuir para essa percepção, a rotina acelerada encabeça a minha lista. O cotidiano agitado e cheio de compromissos, a constante correria e a necessidade de estar sempre ocupado faz com que o tempo pareça passar mais rapidamente. Destaco também a tecnologia e as distrações proporcionadas pela era de constante conectividade e acesso imediato à informação. O uso frequente de dispositivos eletrônicos, como smartphones e computadores, pode fazer com que percamos a noção do tempo enquanto nos envolvemos em atividades on line ou nos distraímos com mídias sociais, jogos e outros entretenimentos.
Há ainda as experiências menos significativas. Quando estamos engajados em ações que consideramos relevantes e que nos desafiam, tendemos a estar mais presentes e conscientes do tempo. No entanto, se as nossas experiências são repetitivas, monótonas ou menos envolventes, podemos ter a sensação de que o tempo está passando com mais agilidade, já que não estamos prestando atenção aos detalhes. Por fim, psicólogos dizem que à medida que envelhecemos a nossa percepção do tempo pode mudar. Quando somos mais jovens, cada experiência é nova e excitante, e a areia da ampulheta parece não cair. À medida que envelhecemos, as experiências se tornam mais familiares e rotineiras, e daí os ponteiros e badaladas parecem acelerar.
E a partir do ditado popular “tempo é dinheiro”, criamos ferramentas e cursos para a gestão do tempo, por ser aspecto crucial para alcançar a produtividade e o sucesso profissional nos dias atuais (definição de metas, lista de tarefas, definicão de prioridades, delegação de tarefas, negativas necessárias etc.). Tenho para mim que são recursos válidos, dos quais podemos nos aproveitar, porém, antes de tentarmos controlar o tempo, precisamos aceitá-lo, entendê-lo neutro. É a nossa interpretação e administração desse recurso limitado – implacavelmente limitado – que influenciam se o vemos como carrasco ou aliado valioso na jornada de cada um.
A minha relação com o tempo é amigável, de gratidão – apesar de eu fazê-lo como meu “sequestrador” -, e atualmente resumida por Mário Quintana em A Vida: “Quando se vê, passaram-se 50 anos!”
*Marcelo Teixeira é jornalista e integrante da Academia Araçatubense de Letras (AAL)

