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    Home»Cidades»Araçatuba»Não entendo o gosto pelo conflito constante
    Araçatuba

    Não entendo o gosto pelo conflito constante

    By dfernandesmr9 de março de 2026Nenhum comentário3 Mins Read
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    *Marcelo Teixeira

    Há algo curioso no nosso tempo: a transformação do conflito em espetáculo cotidiano. Divergências sempre existiram — e são, em muitos casos, necessárias. A política nasceu da divergência; a ciência avança pelo debate; a democracia respira na pluralidade. Ainda assim, o que testemunhamos hoje parece menos um exercício de ideias e mais uma espécie de vício coletivo na hostilidade permanente.

    Talvez seja uma herança de um mundo acelerado, no qual a paciência perdeu prestígio. A discussão ponderada, que exige tempo, estudo e disposição para ouvir, tornou-se menos atraente do que a frase agressiva lançada em poucos segundos nas redes sociais. O conflito virou entretenimento. Como em uma arena antiga, a plateia não quer diálogo; quer combate.

    O problema é que sociedades não são arenas. São comunidades frágeis, compostas por pessoas imperfeitas que precisam conviver apesar das diferenças. Quando o conflito se transforma em hábito, perdemos a capacidade de reconhecer o outro como interlocutor legítimo. O adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo moral. Essa mudança é perigosa.

    A história ensina que a radicalização constante corrói instituições. O sociólogo alemão Norbert Elias (um dos principais representantes da sociologia dos processos, também conhecida como sociologia das figurações ou sociologia figuracional) lembrava que o processo civilizatório depende do autocontrole e da contenção da violência simbólica e física. Quando essas barreiras se enfraquecem, o tecido social começa a se desgastar. Não é preciso chegar às guerras para perceber isso; basta observar a deterioração cotidiana do respeito.

    No Brasil, esse fenômeno ganhou contornos particulares. Somos um país que sempre cultivou a ideia da convivência cordial — nem sempre verdadeira, é claro, mas ainda assim um ideal cultural. Nos últimos anos, contudo, parece que substituímos o diálogo pela disputa permanente. O debate político virou território de insultos; as redes sociais, um campo fértil para indignações sucessivas.

    O curioso é que a maioria das pessoas não vive melhor em ambientes de confronto constante. O conflito contínuo cansa, desgasta e empobrece o pensamento. Quem grita o tempo todo perde a capacidade de escutar — e quem não escuta dificilmente aprende.

    Talvez devêssemos recuperar uma virtude antiga: a dúvida. Dúvida sobre nossas próprias certezas. Dúvida sobre a necessidade de transformar toda discordância em batalha. Dúvida sobre a utilidade de viver permanentemente irritado.

    O filósofo francês Montaigne escreveu, no século XVI, que “a maior parte das confusões do mundo nasce da obstinação em defender opiniões”. Cinco séculos depois, continuamos confirmando essa observação com impressionante fidelidade.

    Conflitos existirão sempre. Eles fazem parte da condição humana. O que não é inevitável é a escolha de viver permanentemente em guerra verbal.

    Talvez a maturidade de uma sociedade não esteja em eliminar os conflitos — tarefa impossível —, mas em reduzir o prazer que alguns parecem sentir ao provocá-los. Afinal de contas, civilização não é ausência de divergência, mas sim a capacidade de conviver com ela sem transformar cada desacordo em uma batalha.

    E, a não ser que haja interesse financeiro inconfessável por trás dessa ação, sinceramente, ainda não entendo por que tanta gente parece gostar do contrário.

    *Marcelo Teixeira é jornalista profissional diplomado e integrante da Academia Araçatubense de Letras, onde ocupa a Cadeira 11

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