RUBENS BIZARRO ROMARIZ
“ É na família que, desde que o filho é gerado, se ganham ou se perdem as batalhas. E o pai é o grande responsável por isso. Os pais que não tiverem lançado um alicerce fundo e sobre a rocha, a casa que os filhos construirão mais tarde não subsistirá aos embates inevitáveis que a vida lhes apresenta. Embora mínimo, o tempo em que o filho vive sob a influência do pai, irá marcá-lo pelo resto da vida.”
Busco nas tranças das lembranças, a minha casa de criança. Encontro minha mãe tecendo um pulôver de lã. Encontro meu pião metálico rodando no chão de cimento queimado da área. Encontro meu cachorro Banzé balançando a cauda de alegria ao me-ver.
Encontro minha pipa vermelha- amarela, pendurada no prego da parede. Encontro minha primeira bola de tento que untei de sebo para que a água da chuva não penetrasse no couro. Encontro sobre a mesa a cartilha “A PATA NADA”, sempre com a primeira letra maiúscula, que me ensinou a começar a ler. No canto de meu quarto eu vejo meu par de sapatos pretos que eu os engraxava constantemente.
Busco na memória e encontro meu irmão que brinca e me desafia, e que tem a sua cama ao lado da minha. Ele é mais arteiro, não tem medo e sempre desafia os perigos. Vejo minha professora primeira Edite saindo da sala, porque é aula de religião e a missionária é católica e Edite e protestante. Percebi pela vez primeira a diferença entre os homens de bem.
Volto a brincar no meu quintal entre as árvores de frutas e vejo minhas duas irmãs. Somos quatro e minha mãe nos chama cobrando os deveres da escola, as tarefas, os banhos, ou para executar pequenos serviços de compras no armazém, na padaria, no açougue. Por fim a tarde sempre chega e ficamos esperando o pai.
Meu pai sempre chegava de terno, de chapéu com sua pasta de documentos e um jornal sobre os braços. Pergunta a minha mãe se tudo correu bem naquele dia, se alguma das crianças se comportou desajustada. Se fizemos as tarefas da escola, e se havia o boletim para assinar. O jantar só começava quando ele autorizava. Depois nos contava uma estória de fábulas, onde os bichos falavam. Como as recordo relembrando em sua voz: ‘O Leão e a Onça’, ou ‘ o Bode e a raposa’, ou ‘ O Jacaré e os Sapos’… Estórias que nos faziam imaginar os perigos e as malandragens dos personagens, cujo final sempre terminava com a vitória da justiça.
Justiça, mandamento primeiro de exemplo de um pai para a formação do caráter do filho. Volto meu olhar sobre a mesa em que fazia as tarefas de aritmética. Somas nas adições, divisões nas repartições, subtrações nas diferenças, multiplicações nas repetições. Verdadeiras orações para decorar as tabuadas, firmeza do pulso na postura dos dedos para a perfeição da caligrafia. Leitura em voz alta para a avaliação na sala do Diretor Almeida.
Busco a imagem do tempo de meu pai ensinando-me a colocar um ‘siri’ ( um cupim com asas) num anzol minúsculo e a lembrança do primeiro lambari na varinha de bambu. Sensação de independência de minha vida com a natureza.
Aos poucos vou colhendo minhas saudades vagando pelas ruas de São Paulo, de mãos dadas com meu pai, nos elevadores dos prédios, nas viagens nos bondes elétricos, nas frutas compradas no mercado municipal, num restaurante de vozes de imigrantes, ao som de músicas italianas.
Hoje nas tranças das saudades, nessa data quase esquecida, nem percebia que à medida que crescia ia esquecendo a presença de meu pai, ia me libertando para voar como se fosse um pássaro liberto do ninho, que não mais necessita de amparo.
Somente agora, procuro o impossível, procuro o sentimento oculto na memória de todas as lembranças de meu pai, procuro-o e por não mais poder voltar da viagem do tempo, choro o choro de minha alma das saudades de meu único pai.
RUBENS BIZARRO ROMARIZ É PRO-FESSOR, CRONISTA E ESCRITOR. ESCREVE PARA O LIBERAL REGIONAL
rb.romariz@gmail.com

