Por Alceu Batista de Almeida Júnior
Durante grande parte do século XX, a linha férrea da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) cortava o centro de Araçatuba e influenciava diretamente a vida cotidiana da população. Mais do que um simples corredor ferroviário, os trilhos representavam uma verdadeira fronteira urbana, dividindo a cidade entre o chamado “lado de cima” e o “lado de baixo da linha”, expressão amplamente utilizada pelos moradores da época. Nesse contexto, o pontilhão de madeira localizado na Rua Prudente de Moraes tornou-se uma das estruturas mais importantes para a circulação de pedestres entre as duas partes da cidade.
A passarela iniciava-se nas proximidades do cruzamento da Rua Prudente de Moraes com a Rua Princesa Isabel e atravessava o extenso pátio ferroviário da Noroeste, desembarcando na Rua Fundador Vicente Franco, permitindo o acesso rápido aos bairros situados além da ferrovia, especialmente o São Joaquim e outras áreas em expansão. Desde os primeiros anos de desenvolvimento de Araçatuba, a ferrovia exerceu papel fundamental no crescimento econômico e urbano do município. Entretanto, sua localização no centro da cidade criou uma barreira física que dificultava a integração entre os bairros. A expressão popular “pra cima da linha” e “pra baixo da linha” tornou-se parte do vocabulário cotidiano dos araçatubenses, identificando não apenas a posição geográfica dos bairros, mas também diferentes momentos da expansão urbana da cidade. Para milhares de moradores, estudantes, trabalhadores e comerciantes, atravessar a linha férrea fazia parte da rotina diária. O pontilhão de madeira surgiu justamente para oferecer uma passagem mais segura sobre os trilhos, evitando os riscos constantes das travessias em nível, especialmente em uma época em que o movimento de trens de carga e de passageiros era intenso.
Quem viveu em Araçatuba entre as décadas de 1960 e 1990 dificilmente esquece a experiência de cruzar aquela passarela. Construída em madeira e sustentada por estruturas simples, ela possuía um aspecto rústico, mas cumpria uma função essencial para a população. Muitos moradores recordam o som característico dos passos ecoando sobre as tábuas, o leve balanço da estrutura durante a travessia e a visão privilegiada do pátio ferroviário logo abaixo. Crianças e adolescentes utilizavam o pontilhão diariamente para ir à escola, visitar parentes ou simplesmente atravessar para o outro lado da cidade. Para muitos, a passagem tornou-se parte inseparável das lembranças da infância e da juventude. Do alto da estrutura era possível observar as locomotivas chegando e partindo, os vagões sendo manobrados e toda a intensa movimentação ferroviária que marcou a história econômica de Araçatuba. O pontilhão acabou transformando-se em um verdadeiro mirante popular sobre a vida ferroviária da cidade.
A partir da década de 1990, Araçatuba passou por uma das maiores transformações urbanísticas de sua história. Com a retirada dos trilhos do perímetro urbano central, concluída em meados de 1995, desapareceu a principal barreira física que dividia a cidade. O antigo leito ferroviário foi urbanizado e deu origem à Avenida dos Araçás, importante eixo viário que passou a integrar regiões antes separadas pela ferrovia. Com a eliminação dos trilhos e a abertura de novas vias de circulação, o pontilhão de madeira perdeu sua razão de existir e acabou sendo desmontado.
Alceu Batista de Almeida Júnior é advogado memorialista e autor do Livro: Memórias de Araçatuba.

