Por Alceu Batista de Almeida Júnior
Em meio à história da formação de Araçatuba, poucos nomes são tão marcantes quanto o de Cristiano Olsen, um verdadeiro herói da colonização do Oeste Paulista. De origem dinamarquesa, Olsen se tornou um símbolo de coragem e dedicação, perdendo a vida tragicamente durante o processo de desbravamento da região.
Cristiano nasceu em outubro de 1875, na cidade de Nykjöbing, ilha de Falster, na Dinamarca. Era filho de Luís e Cristina Maria Olsen e teve cinco irmãos: Antônia, Matilde, Helena, Félix e Pedro. Desde pequeno, demonstrava gosto pela leitura, reflexão e espiritualidade, frequentando cultos na igreja luterana.
Em 1888, a família Olsen decidiu embarcar rumo ao Brasil, movida por promessas de prosperidade em terras ensolaradas. A longa viagem de navio os trouxe até o porto de Santos em 26 de março daquele ano. Logo se instalaram em Campinas, onde começaram a trabalhar em lavouras de café. Foi ali que nasceu o caçula da família, Cândido, o único brasileiro entre os irmãos Olsen.
Cristiano começou a trabalhar cedo: aos 14 anos trabalhou como sapateiro, ferreiro e pedreiro. A família ainda passou por Americana, dedicando-se à agricultura. Aos 18 anos, Olsen casou-se com Francisca Jensen, também dinamarquesa, com quem teve seis filhos: Dorotes, Augusto, Sofia, Pedro, René e Roberto. Na época, moravam em Catanduva.
No início do século XX, com a abertura do interior paulista à ocupação branca, Cristiano e seus irmãos passaram a atuar como agrimensores, medindo e dividindo terras para futuros loteamentos. Eles foram contratados por Roberto Todd Lock, engenheiro em Jaboticabal, ligado a uma companhia de colonização, para dividir a Fazenda Baguaçú, transformando-a em pequenos lotes.
Cristiano se fixou em Araçatuba, trabalhando na Fazenda Baguaçu. Enquanto seu irmão Pedro liderava equipes de campo abrindo picadas na mata, Cristiano se dedicava à parte técnica, elaborando mapas e cálculos topográficos.
Mas a história tomou um rumo trágico em 2 de julho de 1919. Faltando apenas 1.500 metros para concluir o perímetro da Fazenda Baguaçu, Pedro viajou, então Cristiano saiu a campo com mais cinco companheiros para concluir os trabalhos. Durante uma pausa para refeição nas imediações de onde hoje é o bairro Água Branca, o grupo foi surpreendido por um ataque de indígenas da etnia Caingangue. Cristiano foi atingido por uma flecha e, mesmo tentando se abrigar em uma palhoça, caiu morto na porta do barraco.
Os demais trabalhadores resistiram como puderam, trocando tiros enquanto defendiam o corpo de Cristiano. Quando o trem das 14h passou pela linha próxima, tentaram fazer sinal para que o maquinista parasse. Mas, assustado com o cenário, o condutor seguiu até a estação de Araçatuba para buscar ajuda. Os camaradas conseguiram fugir a pé até a estação, mas Cristiano já não estava mais entre eles.
O corpo de Olsen foi posteriormente encontrado decapitado. A caderneta em seu bolso permitiu a identificação. Foi sepultado, junto com outro companheiro, na região de Santa Cruz, perto de Penápolis.
Araçatuba jamais esqueceu seu sacrifício e, em sua homenagem, a principal praça da cidade, que depois passou a se chamar Rui Barbosa e hoje conhecida como Praça do Boi, recebeu originalmente o nome de Cristiano Olsen. Ele também é nome de nossa primeira escola pública e também de uma rua central da cidade, perpetuando sua memória no tecido urbano da cidade que ajudou a desenhar e pela qual deu a própria vida.
Alceu Batista de Almeida Júnior é advogado, historiador e autor do Livro: “Memórias de Araçatuba”.


1 comentário
Pessoas como essa não deveriam receber tanto reconhecimento. Foram responsáveis por roubar terras, expulsar povos nativos e construir sua riqueza sobre a exploração e a violência. Ainda assim, seus herdeiros se revoltam diante da ideia de uma reforma agrária. Herdaram privilégios obtidos por meio do roubo, da escravidão e da morte, mas hoje se colocam como merecedores.